sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Medicina da alma

A verdadeira saúde é se harmonizar com um novo tempo !




Sua doença é o seu aliado, não seu inimigo


:: Silvana Partucci ::

Este é um artigo publicado no "La Vanguardia em 27/11/2002", é uma entrevista antiga, mas de grande interesse. A Entrevistada por Victor-M.Amela é Ghislaine Lanctot (que aparece na foto ao lado), uma ex-médica e autora de "A Máfia Médica", que desafia o atual sistema de saúde.

Tenho 61 anos e nasci em Montreal (Canadá). Fui médica e hoje sou Ghislaine Lactot, médica da alma.

Divorciei-me duas vezes, tenho quatro filhos (de 37e 28 anos) e quatro netos.

Política? Soberania individual! Acredite em si mesmo: você é divino e se esqueceu.

A medicina moderna promove a doença, não a saúde: a denúncia sobre isso está em meu livro "A Máfia Médica".

Estou gripado, o que você me receita?

- Nada.

Nem um pouco de Frenadol?

- Por quê? Para encobrir os sintomas? Não. Cuide de seus sintomas, ouça-se! E sua alma vai lhe dar a receita.

Mas eu fico na cama ou não?

- Pergunte a si mesmo, e faça o que você sente que lhe convém mais. Acredite em si mesmo!

Mas os vírus não se importam com o que eu acredito!

Oh, agora vejo: você escolhe o papel de vítima. Sua atitude é: "Eu peguei a gripe. Eu sou uma vítima de um vírus. Preciso de remédio"!

- Claro que sim, como todos...

Bem, aí está... Minha atitude seria: "Eu me dei uma gripe de presente. Eu sou o responsável! Devo me cuidar um pouco". E eu gostaria de ir para a cama, repousaria, relaxaria, meditaria um pouco sobre como eu tenho me maltratado ultimamente. ..

- V. se deu uma gripe de presente, você diz?

Sim! Sua doença vem de você, e não de fora. A doença é um presente que você faz para se encontrar consigo mesmo.

- Mas ninguém quer uma doença...

A doença reflete uma desarmonia interna em sua alma. Sua doença é o seu aliado, sinaliza que olhe para sua alma e veja o que acontece com você. Agradeça, pois lhe dá a oportunidade de fazer as pazes com você mesmo!

- Talvez o mais prático fosse um comprimido.. .

Fazer a guerra contra a doença? Isso é o que sugere a medicina de hoje, e as guerras matam, sempre trazem a morte.

- Não me diga agora que a medicina mata...

Um terço das pessoas hospitalizadas o são pelo efeito dos medicamentos! Nos Estados Unidos, 700.000 pessoas morrem anualmente por causa dos efeitos colaterais dos medicamentos e dos tratamentos hospitalares.

- Morreriam do mesmo jeito sem medicação, ora.

Não. Não se mudarmos o foco: a medicina moderna se esqueceu da saúde, é uma medicina da doença e da morte! Não é uma medicina da saúde e da vida.
Medicina da doença? Esclareça!...

Na China antiga, um acupunturista era demitido se o seu paciente ficasse doente. Ou seja, o médico cuidava de sua saúde! Entende? Toda nossa medicina é, portanto, um fracasso total.

- Prefere remédios alternativos, por quê?

Eles respeitam mais o corpo que a medicina industrial, é claro: a homeopatia (será a medicina do século XXI!) Acupuntura, fitoterapia, reflexoterapia, massoterapia. .. a prática da yoga... a meditação... são mais baratos... e bem menos perigosos.
- Mas eles não salvam ninguém do câncer.

Diga isso à medicina convencional! Ela o salvaria de um câncer?
- Pode fazer isso, sim.

O que fará com certeza é lhe envenenar com coquetéis químicos, lhe queimar com radiação, lhe mutilar com extirpações...

E, ainda por cima, a cada dia há mais câncer! Por quê? Porque as pessoas vivem esquecendo sua alma (que é divina): a paz de sua alma será a sua saúde, porque seu corpo é o reflexo material da sua alma. Se você se reencontrar com sua alma, se estiver em paz com ela... não haverá câncer!

- Belas palavras, mas se seu filho tivesse câncer, o que você faria?

Alimentaria sua fé em si mesmo: isso fortalece o sistema imunológico, o que afasta o câncer. O medo é o pior inimigo! O medo compromete a sua autodefesa. Nada de medo, nada de se render ao câncer! Tranqüilidade, convicção, delicadeza, terapias suaves...

- Desculpe-me, mas faz mais sentido ir a um oncologista, um médico especialista.

A medicina convencional só deve ser o último recurso, o extremo mesmo... E se sua alma estiver em paz, você nunca irá precisar dela.

- Bem, tenhamos então a alma em paz... mas, se por acaso encontrarem a vacina.

Não! Elas são produzidas com células de ovário de hamster cancerizadas para multiplicá-las e cultivá-las em um soro de bezerro estabilizado com alumínio (Este da hepatite B, com seu vírus): Você injetaria seus filhos com isso?

- Já tenho feito isso várias vezes...

E eu com os meus: Eu era médica, mas ainda não sabia o que sei agora ... No entanto, hoje meus filhos já não vacinam a seus filhos!

- Acho que vou continuar com as vacinas...

Por quê? A medicina atual mata moscas com um martelo: nem sempre morre a mosca, mas sempre se quebra a mesa de cristal. Há tantos efeitos colaterais.. .

- Por que abominou a medicina?

Tornei-me uma médica para ajudar. Eu me concentrei em Flebologia, as veias varicosas. Cheguei a ter várias clínicas. Mas fui percebendo o poder mafioso na indústria médica, que prejudica nossa saúde, que vive à custa de que estejamos doentes! Denunciei isso... e fui expulsa da faculdade de Medicina.

- Ou seja, você já não pode prescrever remédios...

Melhor! Os medicamentos são fabricados pensando na lógica industrial do máximo benefício econômico, e não pensando em nossa saúde. Pelo contrário: se estamos doentes, a máfia médica continua fazendo dinheiro!

- E a quem interessa a "máfia médica"?

À Organização Mundial de Saúde (OMS), às multinacionais farmacêuticas que a financiam, aos governos obedientes, aos hospitais e médicos (muitos por ignorância).. . O que está por trás disso? O dinheiro!

- Você não escolhe nenhum inimigo pequeno...

Eu sei, porém, se eu tivesse me calado, teria ficado doente e hoje estaria morta.

- Qual foi sua última doença?

Dois dias atrás, heheee... uma diarréia!
- E para refletir o que em sua alma?

Oh, eu não sei, eu não analisei... simplesmente limitei-me a não comer... E já me sinto bem!

- Mas, e se ficar muito mal, hein?

Sei, sei... Se a doença for visitá-lo, acolha-a, abrace-a! Faça as pazes com ela! Não saia correndo como louco para encontrar um médico, um salvador... Seu salvador vive dentro de você. Seu salvador é você. Você é Deus!

*****

"Os homens sempre esquecem que a felicidade humana é uma disposição da mente e não uma condição circunstancial. "
John Lodke



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Convivencialidade, Auto-poiesis e Aprenidzagem Organizacional - Rubem Bauer

Convivencialidade, Autopoiesis e Aprendizagem Organizacional

Ruben Bauer

1. Autopoiesis (a Criação de Si) – e Gestão do Conhecimento

Autopoiesis foi a palavra que os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela cunharam para explicar a vida. Poiesis é o ato criativo (mesma raiz de “poesia”); a vida é auto-poiética, ela cria, ela inventa e reinventa a si própria – a partir de si própria.

Mas desde Darwin já não se sabe que a vida se adapta às alterações no meio ambiente, alterações externas a ela? Como poderia então ser o referencial para a renovação da vida algo exclusivamente interno?

Maturana e Varela sabiam que a realidade externa muda; que os seres vivos de alguma forma “tomam conhecimento” dessas mudanças; e que esse processo os leva a mudar também. Eles debruçaram-se então sobre o processo da cognição, sobre o que seria esse “tomar conhecimento”.

E concluíram que qualquer conhecimento a respeito da realidade externa é uma criação interna. Ou seja, para o “conhecedor”, a realidade em si não existe, só existe a sua realidade, internamente criada. Isso renega a visão tradicional, pela qual os nossos cinco sentidos são canais que provêem acesso direto à realidade, e o “conhecimento” seria uma representação, uma imagem da realidade, a mais fiel possível.

O que Maturana e Varela comprovaram foi que os seres vivos não são agregados de partes, são padrões de interrelacionamentos entre essas partes, padrões dinamicamente renováveis. E que a realidade não “entra” em nós, de fora para dentro, pela visão e demais sentidos; ela pode no máximo estimular uma reorganização desse padrão de interrelacionamentos – um processo interno, autônomo.

Para todo e qualquer ser vivo, não existe o mundo em si, cada um cria o seu próprio “mundo”. E esse mundo é criado e renovado a partir daquilo que o ser... é – até aquele instante. E esse ato criativo faz com que o ser... mude. Agora, no instante seguinte, ele tornou-se um ser que renovou o seu mundo – que “conheceu”.

Uma reunião dos Alcoólicos Anônimos, Estados Unidos. O monitor faz um breve discurso: “palavras são só palavras, cada um interpreta de um jeito. Mas hoje, nada de palavras. Vocês vão travar contato direto com a realidade, nua e crua”. Ele pega então dois frascos de vidro, enche um com água e outro com álcool. Pega um pequenino verme e deixa-o cair no frasco com água. O verme afunda, alguns segundos depois começa a movimentar-se, chega à superfície e nada até a borda.

O monitor apanha novamente o verme, deixando-o cair desta vez no frasco com álcool. Ele novamente afunda, só que dessa vez permanecendo inerte. Instantes depois ele começa a se desintegrar. Depois de algum tempo, dele só resta um borrão acinzentado turvando a cristalinidade do líquido.

O monitor pergunta: “todos viram?”. Sim, todos. “E a que conclusão podemos chegar?”. Uma mão se levanta: “Entendo que, se bebermos álcool, não teremos vermes”.

Não há realidade “conhecível” independente da mente do “conhecedor”. Aquele alcoólatra havia renovado o seu conhecimento sobre a sua realidade – tendo por referência quem ele era, um alcoólatra. Aquilo que somos determina os limites para o que conhecemos, ao mesmo tempo em que o que vamos conhecendo vai aos poucos renovando aquilo que somos. Dizem Maturana e Varela: “viver é conhecer, conhecer é viver”. Estar vivendo é estar o tempo todo criando para si uma realidade externa (conhecendo), num processo estimulado pela realidade propriamente dita mas não determinado por ela, e sim pelo que somos. E estar “conhecendo” é estar o tempo todo se renovando, reinventando quem somos – autopoiesis. Os orientais têm um ditado segundo o qual “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”; o novo conhecimento só surge dentro nós quando finalmente nos tornamos abertos a ele. No Ocidente, diz-se de outro modo: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Não há realidade “conhecível” independente da mente do “conhecedor”. Como não? Pode o céu não ser azul? Pode o Sol não ser quente? Se de fato pode, então por que todo mundo (literalmente todo mundo) teima em ver um céu azul, em sentir um Sol quente? Por que a todos nos parece estarmos diante de uma realidade única? Maturana e Varela sustentam que indivíduos de uma mesma espécie submetidos a um mesmo meio acabam por desenvolver histórias pessoais bastante parecidas e, portanto, acabam criando mundos próprios também bastante parecidos.

Podemos trocar de exemplo: Ao invés do céu azul e do Sol quente, tomemos “a Terra é redonda” e “A Terra gira em torno do Sol”. Durante quantos milênios os navegadores se aterrorizavam com a possibilidade de perder a costa de vista, achando que cairiam pela borda do mundo? E durante quantos milênios a humanidade inteira achou que era o Sol que girava em torno da Terra? Homens como Copérnico, Galileu e Kepler foram tidos como loucos (ou hereges, o que à época não era muito diferente), porque seu “mundo” era francamente contrário ao dos demais. O “mundo” então vigente nada mais era que o “conhecimento” da “realidade” – afinal, os barcos desapareciam após a linha do horizonte; e o Sol nascia de um lado, girava por sobre nossas cabeças, e se punha do lado oposto. É ilimitado o número de outros exemplos possíveis: no “mundo” que inicialmente só Gandhi via cabia uma Índia independente da Inglaterra sem o recurso à violência; seu feito notável foi ter conseguido compartilhar essa sua “realidade” com milhões de compatriotas seus.

Conhecimento tácito e conhecimento explícito, conhecimento individual e conhecimento organizacional – gestão do conhecimento. Onde nisso se encaixa a biologia autopoiética? Comecemos pelo conceito de conhecimento tácito.

O conceito de informação é inventado pelo homem por volta da década de 30, com a cibernética de Wiener e a teoria geral dos sistemas de Bertallanfy, mas populariza-se a partir da década de 60 com o advento do computador – seu descendente direto. O fantástico desenvolvimento que se seguiu embaralharia por demais os conceitos de informação e conhecimento, acabando erroneamente por tornar este um subconjunto daquele: nem toda informação seria conhecimento, a maioria era somente números, e números não passam de dados; mas todo conhecimento de alguma forma armazenado em meio magnético seria informação. Mesmo um livro, uma forma milenar de transmissão de conhecimento, passou a ser também considerado informação, só que armazenada em bibliotecas ao invés de computadores.

Quando nos idos dos anos 70 os acadêmicos se depararam com a necessidade de conceituar uma espécie de conhecimento que não seria passível de formalização, por estar introjetada no indivíduo, imbricada à sua trajetória pessoal de vivências, crenças e sentimentos, eles cunharam o termo “conhecimento tácito”. E, em contraposição, todo o restante, todo o conhecimento formalizável seria doravante denominado “conhecimento explícito”.

O que a autopoiesis nos diz é que viver é conhecer, conhecer é viver – para cada ser humano, a trajetória de seu encaixe com o seu “mundo” é única e, portanto, seu conhecimento também é único. Em outras palavras, tudo seria conhecimento “tácito”.

No entanto nós, historicamente, fomos levados a validar primeiro a idéia do conhecimento explícito como um subconjunto da informação, para só depois perceber que havia um “caso particular”, o tal do conhecimento tácito. Por isso já não é tão simples aceitar que aquilo que se hoje chama de “conhecimento explícito” (livros, documentos, bases de dados em computadores) seja tão somente informação. Mesmo que este acervo tenha sido produzido por alguém de grande conhecimento, ele não é conhecimento, é apenas estímulo para o desenvolvimento de conhecimentos individualizados dentro de cada indivíduo que a ele tenha acesso.

Então, não existem conhecimento explícito e conhecimento tácito, “conhecimento explícito” é informação, “conhecimento tácito” é conhecimento, e essas são coisas distintas, e estamos conversados. Acabou? Não, só começou, o melhor vem agora. Considerando-se que já ingressamos na assim chamada Sociedade do Conhecimento, adquirir consciência de que qualquer conhecimento está nas pessoas e que os computadores são meros armazenadores de informações desloca significativamente nosso eixo de referência – das máquinas para os seres humanos.

A maior parte de tudo o que se fez nas últimas décadas sob a alcunha de “gestão do conhecimento” partiu da premissa de que o conhecimento poderia ser manuseado como algo independente das pessoas que o criaram e que o utilizarão; buscou-se, em essência, controlar o conhecimento (compilar, armazenar, recuperar, disseminar, classificar, disponibilizar, tratar; em suma: organizar o conhecimento). A informação pode perfeitamente ser manuseada e controlada: planilhas, livros, documentos, bases de dados, o que for. Mas o conhecimento não.

Lembremo-nos do termo “sistemas especialistas”. Era o estado-da-arte, ao final da década de 80. Sistemas informatizados absorvendo o conhecimento de especialistas para a solução de problemas complexos; e tal como os seres humanos, resolvendo-os melhor à medida que mais problemas são resolvidos. Aprendendo. O que era um sistema especialista? Um “robô de conhecimento tácito”. Dito hoje, soa patético. No mundo inteiro, isto quase sempre acabou em frustração, malgrado as fortunas investidas.

Infelizmente, na maioria das empresas que imaginam estar “gerindo” o conhecimento, tecnologia da informação (TI) ainda vem em primeiro lugar. Resta às pessoas adaptar-se.

Mas aos poucos o quadro começa a mudar. Prusak e Davenport descrevem a progressiva migração dos modelos centrados em repositórios de conhecimento para modelos centrados em mapas de conhecimento. Repositórios são bancos de dados, ainda que flexíveis, como é o caso das listas de discussão da Internet. Mapas, como o nome já diz, são guias que ajudam as pessoas a localizar outras que presumivelmente detenham o conhecimento procurado. Dizem eles: “como regra geral, quanto mais rico e tácito for o conhecimento, mais tecnologia deverá ser usada para possibilitar às pessoas compartilhar aquele conhecimento diretamente. Não é boa idéia tentar conter ou representar o próprio conhecimento usando tecnologia”.

Se o conhecimento é referido à individualidade de cada “conhecedor”, a melhor de todas as formas de compartilhamento é o contato direto. Intermediários - mesmo os de alta tecnologia - tendem a dissipar toda a riqueza de nuanças da comunicação. É óbvio que a tecnologia ajuda a superar constrangimentos de tempo (por exemplo, e-mail) e espaço (por exemplo, telefone ou videoconferência) mas, o que ela pode fazer quanto à qualidade da comunicação? Tratam-se de aspectos como abertura, franqueza, saber ouvir, saber expressar-se, procurar compreender o contexto do outro (seus interesses, preocupações, valores etc. – ou seja, suas histórias) para compreendê-lo melhor. Novamente conforme Davenport: “A confiança organizacional e o contexto interpessoal necessários a uma verdadeira organização em rede não se baseiam apenas em tecnologia. Ao contrário, os relacionamentos necessitam ser inicialmente construídos em encontros face-a-face”. Trata-se de... convivencialidade.

E ganha força o conceito de conhecimento compartilhado: se todo conhecimento reside dentro das pessoas, é preciso que estas cheguem a acordos mínimos quanto a questões como “qual é o nosso negócio?” ou “quem são nossos clientes?”. E isso também é algo que se constrói face a face - convivencialmente. Não menos importante, tais consensos precisam ser dinâmicos, renováveis à medida que o ambiente externo muda – a qualidade da autopoiesis da organização. Também para isso, é preciso que haja convivencialidade.

Quais conhecimentos compartilhados a humanidade já renovou? De “a Terra é chata” para “é redonda”, de “a Terra é centro do Universo” para “gira em torno do Sol”. Na sociedade do conhecimento, uma nova realidade pode já estar diante dos nossos olhos, mas nossa história, nosso “viver” pregresso não nos permite “conhecê-la” ainda. Ousemos imaginar: qual tem sido o vínculo, ao longo de toda a história da humanidade, entre a geração e a distribuição de riqueza? A escassez. Nunca se gerou riqueza suficiente para distribuir a todos. E por quê? Porque os recursos eram finitos. Terras, na era agrícola, e capital, na era industrial. Se eu der a alguém as terras ou o dinheiro que possuo... simplesmente os perco. Mas o conhecimento é um recurso ilimitado, um ativo que aumenta com o uso. Se eu exponho a alguém meu conhecimento, não o perco; e esse alguém, ao combinar seu conhecimento prévio com o que apreende daquilo que falo, chega a novos insights – uma expansão do conhecimento. Para Buckminster Fuller, o grande propagador do conceito de sinergia, o problema do esgotamento dos recursos naturais do planeta (finitos) encontra resposta na inesgotabilidade da criatividade e da inteligência humanas (infinitas); pode-se contrabalançar o esgotamento dos recursos naturais através de formas criativas de uso que minimizem o consumo de recursos e maximizem os resultados. Para Paul Romer, “idéias são as instruções que nos deixam combinar recursos físicos limitados em arranjos cada vez mais valiosos”.

Pela primeira vez em toda a sua história, a humanidade está se tornando capaz de gerar riqueza numa escala sem precedentes. Mas não a distribui adequadamente – porque não sabe como fazê-lo, nunca o fez. Continua a concentrá-la porque foi só isso o que aprendeu a fazer ao longo de milênios, por medo da escassez. Nós apenas não conseguimos ainda nos libertar desse medo, perceber que ele já não tem mais razão de ser; as embarcações não cairão ao atravessar a linha do horizonte. Estamos, finalmente, nos tornando aptos a construir sociedades simultaneamente livres e justas.

2. Convivencialidade
“À medida em que eu domino a ferramenta, eu preencho o mundo com sentido; à medida em que a ferramenta me domina, ela me molda sua estrutura, e me impõe uma idéia de mim mesmo” - Ivan Illich

Convivencialidade é algo que o ser humano sempre teve ao longo de milênios (embora sem se dar conta disso), e foi aos poucos – e num ritmo acelerado de uns 300 anos pra cá – perdendo. Os povos antigos viam, em cada ente da natureza, fosse uma árvore, pedra, estrela ou onda do mar, a manifestação da vontade de seu Deus ou deuses. Profundamente místicos, era assim que eles também viam a si próprios – uma manifestação toda especial da vontade Divina, bem entendido, mas apenas uma manifestação a mais. Seria temerariamente abusivo dispor das demais, afinal não eram suas, pertenciam a Deus; o homem deveria ao menos pedir licença se quisesse usá-las. E assim, o pastor de ovelhas usava para si a criação de Deus, delas extraindo carne, leite, lã e novas ovelhas mas, de tempos em tempos, ele sacrificava em louvor ao seu Deus a mais bonita, a mais viçosa de seu rebanho. Era como se ele Lhe dissesse: “eu dispus, em meu benefício próprio, do que não era meu, era Seu; agora, estou repartindo Contigo uma parte dos frutos do meu trabalho”. A morte da ovelha significava a restituição de sua condição sagrada; uma vez sacrificada, não haveria mais leite nem lã, a carne não iria para a mesa. Não haveria mais “uso”.

Era assim a convivência – um diálogo com a natureza.

Penso, logo... existo. Aos poucos, esse meu existir vai deixando de ser “porque Deus quis” e vai-se tornando “porque Eu penso”. E, se agora sou eu quem racionalmente atribui valor às coisas, ora, que desperdício esse de sacrificar ovelhas, e logo a mais bonita de todas - nada disso. O açúcar faz a riqueza e a glória das cortes de Portugal? Derrube-se a mata atlântica nordestina para abrir espaço aos canaviais. O carvão e o petróleo movem o mundo? Então use-se a atmosfera como depósito de gás carbônico. A natureza vai sendo aos poucos instrumentalizada, transformada em ferramenta a serviço do homem. Sem espaço para o diálogo.

Já a dominação do homem pelo homem é algo que sempre existiu (basta lembrar a escravidão), mas havia sempre algum sacerdote de plantão para justificar que aquela era de alguma forma a “vontade de Deus”. Mas, e hoje? Assistimos ao genial “Tempos Modernos” do Chaplin, a dominação está lá, o homem transformado em ferramenta, mas cadê o sacerdote? A dominação assumiu uma face mais sutil, a da “instrumentalização”, ela tornou-se parte integrante da marcha rumo ao progresso. Em nome do progresso, hoje convivemos “naturalmente” com danos nas articulações das mãos até então inéditos para a humanidade, e banalizamos tais aberrações chamando-as de LER (lesões por esforços repetitivos), como se fossem uma mera unha encravada a mais. Costumava-se há bem pouco tempo questionar os eventuais malefícios da TV, mas as novas gerações já não conseguiriam imaginar um mundo sem a parafernália de videogames, chats, ICQ, jogos eletrônicos até no celular... quantos seriam capazes de ter a calma e a paciência suficientes para ler um livro? Vivemos em megalópoles amontoados a milhões de outros, mas nos sentimos cada vez mais solitários... E quem determina quais são as nossas “necessidades”? Nós mesmos? Ou a indústria da publicidade que nos induz a sentirmo-nos carentes de coisas que sequer sabíamos que existiam?

Pior, não são apenas ou outros e a natureza que nós transformamos em instrumento para nosso “uso”. Como convivemos com nosso próprio corpo? Dialogamos com ele, sabemos pressentir seus sinais de alerta? Vamos dormir ao sentir sono, esperar sentir fome para comer (e sentir que a fome passou para parar de comer)? Ou usamos (e abusamos de) nosso corpo como ferramenta, impondo-lhe um modo anti-natural de vida, sem sequer nos apercebermos disto?

Fomos perdendo assim a convivencialidade espontânea e natural que tínhamos com o mundo, com os outros, conosco mesmo.

Falar do taylorismo ou dos padrões de consumo é até óbvio. Elucidativo mesmo é ver Ivan Illich demonstrando em livros como “A Convivencialidade” ou “Sociedade sem Escolas” o predomínio da instrumentalização (o oposto da convivencialidade) nos campos da educação e da saúde. Vejamos o caso dos transportes: em cerca de apenas um século, o homem passou da libertação proporcionada pelos veículos motorizados para a escravidão imposta pelo automóvel: as pessoas dedicam ao deslocamento motorizado cada vez mais tempo do que julgam que ele lhes poupa. Illich em 1972 estimou que um norte-americano típico gastava mais de 1.500 horas por ano com seu automóvel: sentado nele, em movimento ou estacionado; trabalhando para pagá-lo(!), para pagar a gasolina, os pneus, a manutenção, o seguro, os impostos e as multas. Ele gasta então 4 horas por dia(!!) com seu carro, quer usando-o, cuidando dele, ou trabalhando para pagar seu custo. E ele precisa dessas 4 horas para percorrer em média 27 quilômetros por dia, ou menos de 7 km/h! Francamente, uma bicicleta faria muito melhor. E não foram incluídos nesse cálculo o tempo gasto com acidentes (hospital, tribunais), roubo (delegacias, seguradoras), o tempo assistindo-se na televisão a publicidade dos novos modelos de carros... E Illich não tinha idéia do que significa hoje deslocar-se de carro nos engarrafamentos das ruas de uma cidade como São Paulo! Illich nos mostra que o automóvel nos rouba tempo, ao invés de poupá-lo. Ele restringe a convivencialidade.

...

Auto-organização. Aprendizagem organizacional. Comunidades de prática. Organizações em rede. O que isto teria a ver com convivencialidade? Tudo.

O maior potencial para a criatividade e a inovação está na diversidade, e nas equipes que dela tomam partido; para Dorothy Leonard, “a inovação ocorre nas fronteiras entre as mentes, não dentro do território provinciano de uma só base de habilidades de conhecimento”. O problema é que a grande maioria das pessoas é ensinada desde que nasce a valorizar o convívio com quem pensa igual a elas; nas empresas, não é diferente.

Eficiência é fazer melhor aquilo que já se sabe que se tem de fazer. Inovação e evolução é descobrir o que de novo se deve fazer, diante de um mundo que muda cada vez mais rápido. Aquela requer o pensar igual, estas o pensar diferente. Mas as pessoas foram preparadas para valorizar o convívio com quem pensa diferente delas? Consideremos: como costumam ser as reuniões nas empresas? As pessoas expõem com franqueza e abertura tudo o que pensam? E após ouvir as idéias dos outros, elas sentem-se à vontade para comentar, criticar, propor alterações?

Existe conflito nas organizações? Quando em uma palestra dou minha resposta a esta pergunta costumo ver olhos arregalando: “muito pouco”. A maior parte das pessoas tem um verdadeiro pavor dos conflitos, e justamente por isso elas evitam emitir suas opiniões de forma plena. Elas “medem” suas palavras, sentem aonde estão pisando, arriscam aos poucos, recuam se for o caso. Elas sabem que os outros, tal como elas, também temem a exposição de suas idéias se estas puderem vir a ser confrontadas. Temem que isso represente risco para sua imagem profissional perante os outros.

As raízes para esse medo encontram-se na forma cartesiana e linear de se pensar. Todo efeito deve ter uma causa correspondente, todo problema deve ter uma única explicação correta. Peter Senge diz que, desde que nascemos, alguém sempre tem a resposta “certa”: primeiro os nossos pais, depois nossos professores... acaba sendo natural esperarmos que algum especialista, ou o chefe, ou um colega mais experiente tenha a responsabilidade de “acertar” a solução do problema; até temos também a nossa resposta “certa” mas, se ela estiver em posição frágil para “competir” com as demais, por que nos arriscar? Senge nos diz que a saída está em compreendermos que a maioria dos problemas são de natureza complexa, e que por isso não admitem uma, mas várias soluções possíveis. Não há uma resposta “certa”. Se não há, a busca da resposta “melhor” passa por conjugar os diferentes insights contidos nas diferentes respostas possíveis das pessoas, as quais principiam nas suas diferentes percepções e interpretações da mesma realidade. A isso, que tenderíamos a chamar de confusão, precisamos aprender a chamar de riqueza potencial.

A compreensão de que ninguém pode ter a resposta certa é libertadora, se não precisarmos mais sustentar nossa opinião contra as demais; ao ouvir uma crítica ao que dissemos, poderemos pensar: “que bom, alguém está me dando uma oportunidade para refletir sobre as limitações de minhas idéias, e aperfeiçoá-las”. É uma chance de aprendizado que, em sendo recíproca, configura um diálogo – aprendizagem organizacional. Convivencialidade.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUER, Ruben. Gestão da Mudança: Caos e Complexidade nas Organizações. São Paulo: Atlas, 1998.

BOHM, David. “Sobre o Diálogo” (mimeo). Transcrição e edição de conversa em 1989 por Phildea Fleming e James Brodsky, tradução pela TAL (Transformação Aprendizagem e Liderança), s/d.

BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Cortez e Moraes, 1977.

DAVENPORT, Thomas H. “Saving IT’s Soul: Human-centered Information Management”. Harvard Business Review, v. 72, n. 2, p. 119-131, Mar-Apr 1994.

DAVENPORT, Thomas H. e PRUSAK, Laurence. Conhecimento Empresarial: Como as Organizações Gerenciam o seu Capital Intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência como Ideologia. In: Habermas, J. Técnica e Ciência como Ideologia, p. 45-92. Lisboa: Edições 70, 1968.

ILLICH, Ivan. A Convivencialidade. Lisboa: Europa-América, 1976.

von KROGH, Georg e ROOS, Johan. Organizational Epistemology. London: MacMillan, 1995.

SCHEIN, Edgar H. “Diálogo, Cultura e Aprendizado Organizacional” (mimeo). Tradução e adaptação de André L. Alckmin, s/d.

SENGE, Peter. A Quinta Disciplina: Arte a Prática da Organização de Aprendizagem. 2. ed. São Paulo: Best Seller, 1998.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Tãbua de Esmeralda



A famosa Tábua de Esmeralda sempre foi utilizada como ponto de partida para os estudiosos da alma humana. Segundo dizem, neste pequeno texto, originariamente gravado em uma esmeralda, estão encerrados os mais secretos segredos da vida. Alquimistas, filósofos, magos, cabalistas, basearam suas pesquisas neste fragmento de sabedoria, atribuído a um sábio egípcio chamado Hermes Trimegisto. Daí o motivo do nome hermetismo para generalizar as diversas correntes ocultistas ao longo do tempo. Veja uma versão do texto da Tábua de Esmeralda, seguido de uma breve interpretação pessoal.

"É verdade, correto e sem falsidade, que o que está em baixo, é como o que está em cima, para realizar os milagres de uma coisa só.

Como todas as coisas derivam-se da Coisa Única, pela vontade Daquele que as criou, pelo poder de sua palavra, assim também tudo deve a sua existência a esta Unidade, pela ordem Natural criadora.

O Sol é o seu pai, a Lua é a sua mãe, o vento o transporta em seu ventre, a terra é a sua nutriz. Este ente é o pai de todas as coisas do Mundo. Seu poder é imenso e perfeito.

Separarás a terra do fogo, o sutil do denso, com muito cuidado e grande habilidade. Ela sobe da terra ao céu e de novo descerá à terra, deste modo recebe a força das coisas superiores e inferiores.

Por este meio terás a glória de todo o mundo quaisquer trevas afastar-se-ão de ti. É a força forte de toda a força, pois vencerá toda a coisa sutil e penetrará toda a coisa sólida. Assim foi criado o universo. E, Disto surgem maravilhosas realizações, cujo meio está aqui.

Por isso sou chamado Hermes Trismegisto, porque possuo poder sobre as três partes da sabedoria do mundo. O que eu disse da obra-mestra da Arte Alquímica, a Obra Solar, aqui está dito e encerrado. Tudo".




De acordo com as premissas da alquimia interior, a tábua da esmeralda revela, simplesmente, que existe um mundo espiritual que reflete tudo o que existe no mundo material ou vice-versa já que tudo é uma coisa só. Todas as experiências positivas e negativas têm sua origem nos níveis mais elevados da consciência. Com a compreensão destes segredos pode-se dominar o quinto elemento, denominado pelos antigos alquimistas de quintessência, que consiste na energia original criadora do Universo. O detentor deste poder pode descer aos abismos infernais se fizer o seu uso incorreto; ou ascender aos céus inefáveis se fizer o uso adequado.

Na compreensão do código da Esmeralda está a chave de ouro que abre o Palácio da Eternidade. Buscai e encontrareis esse conhecimento sagrado.
Aonde?
Dentro de você mesmo.
Como?
Somente através do estudo constante e da prática do autoconhecimento, será possível chegar a um entendimento profundo das palavras transcritas na esmeralda por Hermes. Existem diversas análises sérias e profundas acerca do texto acima. Entretanto, como se trata de um texto iniciático, acreditamos que só através do estudo e da prática da alquimia interior, pode-se chegar a uma interpretação segura acerca do texto.

Apenas para servir de estímulo e meditação sobre as verdades contidas na Tábua de Esmeralda, apresentamos uma breve interpretação de caráter pessoal acerca do texto iniciático de Hermes. Cada parte do texto será precedida de uma análise embasada nos conceitos mais espiritualizados do hermetismo. Vejamos:

É verdade, correto e sem falsidade, que o que está em baixo, é como o que está em cima, para realizar os milagres de uma coisa só. Aqui está confirmada a grande realidade esotérica de que tudo se manifesta em diversos planos de consciência ao mesmo tempo. Isso pode ser atribuído tanto à natureza do Universo em sua essência, quanto à nossa vida pessoal. Em outras palavras; assim como a terra e o universo visível é uma manifestação limitada da natureza de Deus; também somos uma pequena centelha da luz divina em expressão. Tudo o que está acima nos mundos superiores, é como o que vemos aqui neste mundo. Tudo é uma coisa só. Uma dimensão refletindo na outra e se relacionando mutuamente. Em nós ocorre processo idêntico. As mais diversas correntes herméticas são unânimes em afirmar que refletimos em nosso mundo fenomenológico tudo aquilo que vem do mais íntimo do nosso ser. Como o que está em baixo é uma representação do mais elevado, nossa experiência é uma manifestação direta daquilo que está dentro de nós. Isso é um grande segredo que, ao ser revelado aos olhos internos, representa na aquisição de um "grande poder".Como todas as coisas derivam-se da Coisa Única, pela vontade Daquele que as criou, pelo poder de sua palavra, assim também tudo deve a sua existência a esta Unidade, pela ordem natural criadora.Esta passagem nos faz refletir sobre a grande verdade de que tudo o que vemos, tocamos e sentimos é uma manifestação do Poder Criador Universal que, modestamente, costumamos chamar de Deus. Ele é plenitude, grandiosidade, onipresença e onipotência. É o Todo presente em tudo. Os universos e tudo o que neles há, são partes integrantes desse poder sem limites. A compreensão desta Verdade Absoluta simboliza a porta de entrada ao Templo de Luz, que se abre ao Iniciado. Sem o reconhecimento de que tudo é manifestação do Único, não é possível abrir as portas do Santuário. Esta é a Chave; a Senha.

O Sol é o seu pai, a Lua é a sua mãe, o vento o transporta em seu ventre, a terra é a sua nutriz. Este ente é o pai de todas as coisas do Mundo. Seu poder é imenso e perfeito. Em linguagem simbólica o sol representa o princípio masculino criador. É o poder ativo nos atos de criação, enquanto a lua representa a passividade. Esta passagem representa, lucidamente, uma alegoria aos processos criativos do homem, que é capaz de recriar sua vivência à maneira de um deus. Aqui é apresentada a maneira universal utilizada em todo processo criativo, tanto por Deus, quanto pelo homem. Nesta representação alegórica estão os segredos utilizados, consciente ou inconscientemente, por todos os seres humanos em seus processos criadores; é utilizado diariamente por todos, mas poucos sabem utilizá-lo de maneira metódica, consciente e dirigida. Sabiamente o texto prescrito na esmeralda diz que este ente (ato criador) é o pai de todas as coisas do mundo. Representa o quinto elemento ou a essência de toda criação divina - e humana. No homem esse poder é acionado em todas as vezes que se alimenta um pensamento, com as poderosas energias da fé e da vontade. Mas, atenção! A manifestação só se concretiza quando a vontade e a fé tornam se parte integrante da alma. Esse é um segredo hermético conhecido e reconhecido como o Grande Arcano. É utilizado para criar céu e inferno em nossa vida, através de nossa própria maneira de agir e reagir diante do mundo. O perfeito domínio desse poder consiste naquilo que se poderia chamar de "Pedra Filosofal". Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Separarás a terra do fogo, o sutil do denso, com muito cuidado e grande habilidade. Ela sobe da terra ao céu e de novo descerá à terra, deste modo recebe a força das coisas superiores e inferiores.
Aqui está o segredo para se conquistar o poder mencionado anteriormente, como o pai de todas as coisas. Todo o lento labor alquímico - do ponto de vista da Alquimia Espiritual - tem suas bases nestes preceitos. Separar o sutil do denso, ou seja: matéria e espírito. É exatamente assim que se processa a elevação espiritual. Através do desligamento do mundo dos fenômenos, nos momentos de oração ou meditação, elevamos o nosso ser da terra aos céus. Se o processo for executado corretamente, desceremos dessa ascenção momentânea, mais espiritualizados, cada vez mais adquirindo domínio sobre os poderes superiores e, consequentemente, sobre os mais inferiores. Dessa forma, através de um processo de evolução lento e contínuo, pode-se algum dia dominar a Arte Real e colaborar de forma magnífica com o Criador de todas as coisas na concretização da Grande Obra. Por este meio terás a glória de todo o mundo quaisquer trevas afastar-se-ão de ti. É a força forte de toda a força, pois vencerá toda a coisa sutil e penetrará toda a coisa sólida. Assim foi criado o Universo. E, disto surgem maravilhosas realizações, cujo meio está aqui.

Eis aqui o segredo dos segredos revelados aos olhos que podem enxergar e aos ouvidos preparados para ouví-lo: a concretização da Grande Obra consiste, simplesmente, em dominar e subjugar os quatro elementos em suas diversas naturezas, através de uma prática constante de autoconhecimento e autodomínio. Exercer com maestria o poder da vontade inabalável é a chave utilizada para abrir as portas do seu templo interior onde está resguardado dos olhos do mundo o seu tesouro oculto. Como diz o antigo texto prescrito por Hermes, esse o domínio desse poder (da forma correta, pode afastar as trevas), vencendo tudo o que é sutil e penetrando tudo o que é sólido já que tudo é uma coisa só. O grande Hermes afirma, concluindo, que é exatamente dessa forma que Deus criou o Universo e todas as coisas. Em outras palavras: o Verbo Divino ou a força da vontade de Deus. Todo o cosmos foi criado pelo poder de sua palavra (Verbo). O “Fiat Lux” (Faça-se a Luz) da criação. Esse mesmo poder foi doado ao ser humano por herança divina. Temos o poder divino de criar aquilo que imaginamos e cultivamos em nossa experiência de vida; seja o bem ou o mal. é por isso que a Bíblia diz que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Porque temos o poder de criar, assim como ele.

“Por isso sou chamado Hermes Trismegisto, porque possuo poder sobre as três partes da sabedoria do Mundo. O que eu disse da obra-mestra da Arte Alquímica, a Obra Solar, aqui está dito e encerrado. Tudo".

Hermes aqui se auto-entitulava Trimesgisto (três vezes grande) porque dominava os três aspectos da sabedoria do mundo: física, mental e espiritual. Através da conquista dessa Arte era capaz de executar a Grande Obra com êxito.

Podemos fazer o mesmo.
O divino Mestre Jesus não estava brincando quando disse que qualquer um de nós poderia realizar milagres e curas maiores que as que ele próprio executou.

Como?

A resposta está em uma outra frase proferida pelo Divino Mestre em outra ocasião:

"... sede perfeitos como o vosso Pai Celeste" - disse Ele.

Difícil?

Quase impossível!

Como?

Através de um trabalho lento, persistente e contínuo, que pode durar um tempo além daquilo que podemos calcular através de uma visão puramente materialista.

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Este texto foi escrito por Francisco Ferreira (Mr. Smith).

Está licenciado sob uma Licença Creative Commons.

Atritos - Roberto Crema


ATRITOS

Ninguém muda ninguém;
ninguém muda sozinho;
nós mudamos nos encontros.

Simples, mas profundo, preciso.
É nos relacionamentos que nos transformamos.
Somos transformados a partir dos encontros,
desde que estejamos abertos e livres
para sermos impactados
pela idéia e sentimento do outro.

Você já viu a diferença que há entre as pedras
que estão na nascente de um rio,
e as pedras que estão em sua foz?

As pedras na nascente são toscas,
pontiagudas, cheias de arestas.

À medida que elas vão sendo carregadas
pelo rio sofrendo a ação da água
e se atritando com as outras pedras,
ao longo de muitos anos,
elas vão sendo polidas, desbastadas.

Assim também agem nossos contatos humanos.
Sem eles, a vida seria monótona, árida.
A observação mais importante é constatar
que não existem sentimentos, bons ou ruins,
sem a existência do outro, sem o seu contato.
Passar pela vida sem se permitir
um relacionamento próximo com o outro,
é não crescer, não evoluir, não se transformar.

É começar e terminar a existência
com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa.
Quando olho para trás,
vejo que hoje carrego em meu ser
várias marcas de pessoas
extremamente importantes.

Pessoas que, no contato com elas,
me permitiram ir dando forma ao que sou,
eliminando arestas,
transformando-me em alguém melhor,
mais suave, mais harmônico, mais integrado.
Outras, sem dúvidas,
com suas ações e palavras
me criaram novas arestas,
que precisaram ser desbastadas

Faz parte...
Reveses momentâneos
servem para o crescimento.
A isso chamamos experiência.
Penso que existe algo mais profundo,
ainda nessa análise.
Começamos a jornada da vida
como grandes pedras,
cheia de excessos.

Os seres de grande valor,
percebem que ao final da vida,
foram perdendo todos os excessos
que formavam suas arestas,
se aproximando cada vez mais de sua essência,
e ficando cada vez menores, menores, menores...

Quando finalmente aceitamos
que somos pequenos, ínfimos,
dada a compreensão da existência
e importância do outro,
e principalmente da grandeza de Deus,
é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado?
Sabemos quanto se tira
de excesso para chegar ao seu âmago.

É lá que está o verdadeiro valor...
Pois, Deus fez a cada um de nós
com um âmago bem forte
e muito parecido com o diamante bruto,
constituído de muitos elementos,
mas essencialmente de amor.
Deus deu a cada um de nós essa capacidade,
a de amar...
Mas temos que aprender como.

Para chegarmos a esse âmago,
temos que nos permitir,
através dos relacionamentos,
ir desbastando todos os excessos
que nos impedem de usá-lo,
de fazê-lo brilhar

Por muito tempo em minha vida acreditei
que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ferir e ser ferido,
ter e provocar raiva,
ignorar e ser ignorado
faz parte da construção do aprendizado do amor.

Não compreendia que se aprende a amar
sentindo todos esses sentimentos contraditórios e...
os superando.
Ora, esse sentimentos simplesmente
não ocorrem se não houver envolvimento...

E envolvimento gera atrito.
Minha palavra final: ATRITE-SE!

Não existe outra forma de descobrir o amor.
E sem ele a vida não tem significado.

Roberto Crema

Psicologia Transpessoal


Artigos
Psicologia Transpessoal
Por Alexandre Pedrassoli
A psicologia, uma ciência bastante recente em termos históricos, ainda está à espera de uma unificação, uma lei geral que coordene suas diversas visões, por vezes antagônicas. Alguns autores admitem inclusive a existência não de uma única disciplina chamada psicologia, mas de diversas psicologias. Realmente, as diversas abordagens psicológicas, como a psicanálise, o behaviorismo e o humanismo, entre outras, divergem em sua essência, já que apresentam diferentes visões do ser humano. São portanto, incompatíveis, desde seus pressupostos mais elementares.

Pode-se dizer que a psicologia transpessoal é a primeira tentativa de integrar as diferentes visões de homem em uma visão mais ampla e abrangente, onde as divergências de opinião não sejam mais vistas como antagonismos, mas como visões complementares e não-excludentes sobre o mesmo objeto de estudo: o ser humano.

O termo transpessoal significa “além do pessoal” ou “além da personalidade”. Utiliza-se esse termo porque a psicologia transpessoal ocupa-se de capacidades humanas que estão além da esfera do ego. A abordagem transpessoal procura integrar em sua visão todo o potencial humano que está ainda por desenvolver. Essas capacidades potenciais estão relacionadas à existência de estados superiores de consciência, ainda desconhecidas para a maior parte da humanidade. O caminho para atingir esses estados é o caminho da autotranscendência, ou superação do ego individual. Daí os termos: superação do ego, além do ego, trans-ego, transpessoal.

A psicologia transpessoal é também a primeira corrente da psicologia a considerar expressamente que o homem possui uma dimensão espiritual. Chega a ser uma ironia que a psicologia, que adotou uma palavra que significa “estudo da alma” para definir a si própria (do grego: psykh(o) = alma e logía = ciência, estudo sistemático), não tivesse até então se interessado em estudar mais detidamente a espiritualidade humana. O Prof. Dr. Elias Boainain Jr., em sua tese de doutorado sobre as dimensões transpessoais da psicologia rogeriana (veja Carl Rogers), fala-nos sobre a espiritualidade como um dos objetos de estudo da psicologia transpessoal:

A espiritualidade, ou a dimensão espiritual do homem [...] identifica o Movimento Transpessoal como a primeira corrente da Psicologia contemporânea que dedica atenção sistemática e privilegiada à dimensão espiritual da experiência humana, até então ignorada, negada, negligenciada ou reduzida a derivações secundárias de outras faixas inferiores do ser, como a sexualidade e a agressividade sublimadas, por exemplo. O próprio uso mais ou menos freqüente e generalizado do termo espiritual que os transpessoais fazem, tomando emprestado à Religião este e outros vocábulos, na falta de termos próprios na tradição psicológica ocidental, fala-nos do desinteresse da Psicologia pelo assunto. (BOAINAIN JR., 1996)

Histórico
Reconhece-se atualmente na psicologia quatro grandes correntes, ou “forças”. A Primeira Força é a abordagem comportamental ou Behaviorismo. A Segunda Força é a Psicanálise, fundada por Sigmund Freud e a Terceira Força é a Psicologia Humanista. A Psicologia Transpessoal surgiu então com a proposta de ser a Quarta Força da Psicologia (para mais detalhes, veja O que é psicologia (para leigos)). De modo diferente das 3 forças que a antecederam, a Psicologia Transpessoal não aparece com contestação das correntes já vigentes, mas como uma evolução natural da Terceira Força, a Psicologia Humanista. De fato, é de dentro do movimento humanista que surgem alguns dos “fundadores” do movimento transpessoal. Dentre eles, destacam-se Abraham Maslow (1908-1970) e Antony Sutich (1907-1976). Em seu livro Introdução à Psicologia do Ser, na edição de 1968, Maslow aponta para o surgimento da Quarta Força:

Devo também dizer que considero a Psicologia Humanista, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Força ainda “mais elevada”, transpessoal, trans-humana, centrada mais no cosmos que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação (…). (MASLOW, 1998, p.ii).

Em 1967, um comitê liderado por Sutich e do qual participaram nomes como James Fadiman, Michael Murphy, Miles Vich e Sidney Jourard, passa a reunir-se para organizar a publicação de uma revista de Psicologia Trans-Humanística, primeiro nome dado à nova abordagem. Em 1968, o mesmo comitê, com a participação de Viktor Frankl e Stanislav Grof, mudam o nome para Revista de Psicologia Transpessoal (Journal of Transpersonal Psychology) e a revista é lançada em 1969. É a partir de então que o termo “transpessoal” passa a ganhar força. Em 1972, funda-se a Associação de Psicologia Transpessoal (Association for Transpersonal Psychology). Marcia Tabone relata esse período inicial:

Durante os dez primeiros anos de existência da Association for Transpersonal Psychology, houve uma rápida evolução e a perspectiva transpessoal transcendeu os limites da Psicologia, da Psiquiatria e especialmente da Psicoterapia. As descobertas revolucionárias de outras disciplinas, como a Física quântica relativista, a teoria dos sistemas, a Parapsicologia, a Holografia, etc., confirmaram e fundamentaram as constatações apresentadas pelo movimento transpessoal. (TABONE, 1988, p.99)

Do surgimento do movimento até os dias de hoje, nota-se que houve uma mudança de ênfase. Originalmente entusiasmada com os chamados “estados alterados de consciência” (atualmente denominados “estados inusuais de consciência”), passou gradualmente a procurar uma visão integradora, que procurasse absorver as teorias antecessoras e dar um corpo único à psicologia, de acordo com a nova visão de homem. Autores como Roberto Assagioli, com sua Psicossíntese e Ken Wilber, com a teoria do Espectro da Consciência que resultou na sua Psicologia Integral, colaboraram para criar modelos abrangentes da consciência humana, tentando englobar as demais correntes psicológicas.

A Psicologia Transpessoal observou também que alguns estados comumente classificados como “surtos psicóticos” se assemelhavam às experiências místicas de vários povos, de diversas linhas religiosas e espirituais. Passou então a considerar que alguns desses “surtos” são na verdade experiências de transcendência ou de dissolução temporária do ego, para uma ampliação de consciência. Stanislav Grof chama esses estados de “emergência espiritual”, e ocupou-se de estabelecer critérios para diferenciá-los dos surtos psicóticos. Essas “experiências culminantes”, segundo a terminologia de Maslow, são assim descritas por Grof.

Sentimentos de unidade com todo o universo. Visões e imagens de épocas e locais distantes. Sensações de vibrantes correntes de energia percorrendo o corpo, acompanhadas de espasmos e violentos tremores. [...] Vívidos vislumbres de luzes brilhantes e das cores do arco-íris. Temores de insanidade, e até de morte, iminente. (GROF, 1989, p.23)

Segundo a Associação de Psicologia Transpessoal, estes são, entre outros, os objetos de estudo dessa associação:

•Psicologia e Psicoterapia
•Meditação, caminhos e práticas espirituais
•Mudança e transformação pessoal
•Pesquisa da consciência
•Vício e recuperação
•Pesquisa de psicodélicos e estados alterados de consciência
•Morte e Experiências de Quase-Morte (EQM)
•Auto-realização e valores superiores
•A conexão mente-corpo
•Mitologia e Xamanismo
•Experiências culminantes
Atualmente, a Psicologia Transpessoal no Brasil encontra ainda resistências junto ao meio acadêmico, embora um número crescente de trabalhos nessa linha venha sendo produzido. Poucos cursos de graduação em Psicologia oferecem a disciplina de Psicologia Transpessoal, embora haja um gradual crescimento na oferta de cursos de especialização nessa área. Nos Estados Unidos, há vários anos, já existe a especialização em Psicologia Transpessoal, sob diversos nomes. Um desses cursos em funcionamento é o de Psicologia Integral, idealizado por Ken Wilber.

Links relacionados:
Journal of Transpersonal Psychology: www.atpweb.org/journal.asp

Association for Transpersonal Psychology: www.atpweb.org

ALUBRAT – Associação Luso-Brasileira de Transpessoal: www.alubrat.net

ABPT – Associação Brasileira de Psicologia Transpessoal: www.abptranspessoal.com

Autores Relacionados:
•Abraham Maslow
•Anthony Sutich
•Carl Gustav Jung (pesquisar livros)
•Carl Rogers (pesquisar livros)
•Frances Vaughan
•Fritjof Capra (pesquisar livros)
•Ken Wilber (pesquisar livros)
•Pierre Weil (pesquisar livros)
•Roger N. Walsh
•Stanislav Grof (pesquisar livros)
•Viktor Frankl (pesquisar livros)
Referências Bibliográficas
Association for Transpersonal Psychology. About ATP: Transpersonal Perspective. Disponível em: . Acesso em 8 maio 2008.

Boainain Jr., Elias. Transcentrando: Tornar-se transpessoal. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, Instituto de psicologia. São Paulo, 1996.

Grof, Stanislav. Além do Cérebro. São Paulo: McGraw-Hill, 1988.

Grof, Stanislav; Grof, Christina. Emergência Espiritual. São Paulo: Cultrix, 1989.

Maslow, Abraham M. Toward a Psychology of Being (Introdução à Psicologia do Ser). 3.ed. Now York: John Wiley & Sons, 1998.

Tabone, Marcia. A Psicologia Transpessoal. São Paulo: Cultrix, 1988.

Artigos Relacionados
•Maslow e as pessoas auto-realizadoras
•O que é psicologia (para leigos)
•Stanislav Grof
Tags: psicologia, psicologia transpessoal

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Universo Auto-consciente de Amit Goswani


O Universo Auto-consciente de Amit Goswani e a Filosofia do Idealismo Monista.

"O universo é auto-consciente através de nós". - Amit Goswmi - PhD.

O UNIVERSO AUTO-CONSCIENTE DE AMIT GOSWAMI
"O universo é auto-consciente através de nós". - Amit Goswmi - PhD.

Uma pequena biografia: Amit Goswami PhD. É um dos mais importantes físicos da atualidade e um dos poucos que penetrou fundo na espiritualidade humana. No seu livro "O Universo Auto-Consciente" - demonstra como a consciência cria o mundo material. Cientificamente, através da física quântica, ele prova que o universo é um conjunto superior - Deus_. Isto torna sólida a sua afirmação de que á a consciência que cria a matéria e não o contrário, como até hoje "crê" o Realismo Materialístico implantado na ciência por Isaac Newton e Rennè Descartes. Amit Goswami é professor titular de física quântica no Instituto de Física Teórica da Universidade do Oregon e autor de numerosos textos científicos.
Rose Marie Muraro - Editora Rosa dos Tempos.

Infinito: Atualmente, o físico Amit Goswami presta serviços no Instituto de Ciências Noéticas, fundado pelo astronauta e psicólogo Edgard Mitchell.

A FILOSOFIA DO "IDEALISMO MONISTA"

"Quanto mais eu observo o universo mais ele se parece a um grande pensamento do que a uma grande máquina". - Albert Einstein

A base do Idealismo Monista é a CONSCIÊNCIA e não a matéria. Reduzindo-se tudo à sua origem encontramos a CONSCIÊNCIA.
Ela é a realidade única e final da matéria, dos pensamentos, a noção do imanente e do transcendente, os arquétipos, idéias, do mundo manifesto, enfim, tudo é a consciência.
A filosofia do Idealismo Monista é unitária, as subdivisões são realizadas pela e na consciência. Na Grécia, o filósofo Platão deixou na sua "República" a proposta do Idealismo Monista, na atualidade, ela é defendida pelo físico teórico Amit Goswami Phd.
Na "República", Platão exemplifica a sua teoria usando a "Alegoria da Caverna", que se tornou célebre.

A Alegoria da Caverna - Platão

Dentro de uma caverna estão sentados seres humanos, hipnotizados pelo jogo de luzes e sombras projetado na parede da caverna. A hipnose é tão grande, que estes seres não se voltam e não conseguem tirar os seus olhos daquela projeção. Entretanto, é a luz que projeta aquele espetáculo de sombras, do universo que está lá fora.
Nós somos idênticos aos seres que estão nesta caverna, como eles, confundimos a realidade com as sombras-ilusões, que contemplamos embevecidos na parede da nossa caverna. Entretanto, a realidade genuína está às nossas costas na luz e nas formas arquetípicas que ela projeta como sobras.
Esta alegoria serve para demonstrar que os nossos "espetáculos de sombra" são as manifestações imanentes-irreais da nossa experiência humana de realidades arquetípicas, pertencentes a um mundo transcendente. A LUZ é a única realidade nesta alegoria, pois é tudo o que percebemos. - "No idealismo Monista, a CONSCIÊNCIA é como a luz na Caverna de Platão". Amit Goswami.

O Idealismo Monista nas literaturas idealistas das diversas culturas

Vedanta - Índia: NAMA são os arquétipos transcendentes e RUPA a sua forma imanente.
A Consciência Universal é Brahman, o ser fundamental e único. Brahman existe para além de Maya (ilusão).
"Todo este universo sobre o qual falamos e pesamos nada mais é do que Brahman. Nada mais existe".
Budismo: NIRMANAKAYA e SAMBHOGAKAYA são os reinos materiais e das idéias.
DHARMAKAYA, acima destes reinos é a consciência única que os ilumina.
Na realidade, só existe o Dharmakaya! "Nirmanakaya é a aparência do corpo de Buda e as suas atividades inescrutáveis. O Dharmakaya de Buda está livre de qualquer percepção ou concepção de forma".

O Yin-Yang é um símbolo taoísta. O yang é a parte clara, símbolo masculino e o yin a parte escura, símbolo do feminino. O yang é o reino do transcendente e o yin o imanente. "Aquilo que permite ora as trevas, ora a luz, é o TAO", o Uno que transcende suas manifestações complementares.

A Kabbalah judaica - são duas as ordens de realidade: Sefiroth - transcendente, teogonia e a Alma de peruda imanente "o mundo da separação". O ZOHAR dia: "Se o homem contempla as coisas em meditação mística, tudo se revela com Uno".

Cristandade - Céu, transcendente e Terra, imanente. São originadas, estas palavras, do Idealismo Monista. O que está além do céu e da terra? O Rei, a Divindade. "Ela (a consciência fundamento do SER) está em nosso intelecto, alma e corpo, no céu, na terra, enquanto permanece em SI MESMA. Ela está simultaneamente em, à volta e acima do mundo supercelestial, um sol, uma estrela, fogo, água, espírito, orvalho, nuvem, pedra, rocha, tudo o que há". Dionísio - idealista cristão.

Há que se observar que em todas estas descrições a Consciência é tida como ÚNICA, mas chega até nós através das suas manifestações complementares, idéias e formas. Este é um importante e precioso componente da Filosofia Idealista.

Misticismo - Você pode pegar uma pedra, pode arrastar e se sentar em uma cadeira, observar as coisas ao seu redor e crer que são realidades materiais separadas de você e das outras pessoas. Você as considera REAIS, porque as experiências da forma como se fossem materiais e perfazendo toda uma realidade.
As experiências mentais são diferentes, não se parecem com as ditas reais e materiais, por esta razão, nós resolvemos que "mente" e "corpo" são separados, cada qual no seu domínio, nos tornamos, portanto, dualistas.Com o dualismo as explicações ficam dificultadas: como pode uma coisa imaterial, como a mente, interagir com outra material, como corpo material? Se interagirem uma com o outro, qual seria a troca de energias entre os dois? Pela lei da "conservação de energia" no universo material, a energia permanece constante e nada ainda nos provou que essa energia foi desviada para o domínio mental ou que dele foi retirada. E agora? Como estes dois domínios agem para fazerem as suas interações?
Os seguidores do idealismo sustentam a realidade primária da consciência e dão o justo valor às nossas experiências subjetivas, mas... não sugerem e nem afirmam que a consciência é a MENTE. Muita atenção: costumamos confundir "alhos com bugalhos" - A CONSCIÊNCIA NÃO É A MENTE! Mantenham esta explicação para sempre.

Então o que é a consciência?

Pego, nas minhas mãos uma bola que é um objeto material. E penso neste objeto como sendo uma bola. O objeto material-bola - e o mental - meu pensamento sobre o objeto bola - todos os dois se tornam objetos na consciência e nesta experiência existe um observador, um sujeito que está experimentando - pegar na bola e nela pensar.
De acordo com Idealismo Monista, a consciência do sujeito em uma experiência sujeito-objeto é a mesma que constitui o fundamento de todo o ser: só há um "sujeito-consciência" pois a consciência é UNITIVA e SOMOS essa consciência!

Os Upanishades, livros sagrados da Índia, afirmam - "Tu és ISSO" - e os hindus chamam à consciência, sujeito/ser do ATMAN.
No cristianismo, a consciência é o Cristo Interno, o Eu Superior ou o Espírito Santo. Para os cristãos quakre, ela é a LUZ interna. O que importa não são os seus nomes e sim a sua experiência transmutadora inefável, inestimável. O filósofo Aldous Huxley escreveu um livro "A Filosofia Perene", o testemunho dos grandes vultos da humanidade que vivenciaram o ser-consciência, todos eles falam a mesma linguagem e expressam a linguagem da consciência de forma semelhante, a Unidade na Diversidade dos vários personagens que dela forneceram os seus testemunhos.

As religiões

As religiões foram fundadas, com o fito de simplificarem para as massas os ensinamentos místicos dos que vivenciaram a Realidade Absoluta. Cada uma apresenta a sua senda, um caminho, mas a DESCOBERTA final só poderá ser feita por cada um dos peregrinos, ninguém, ninguém mesmo poderá faze-la por você, este é o SEU trabalho.
Infelizmente, todas as religiões se tornaram DUALISTAS. O dualismo das religiões monoteístas judaico-cristãs absorveu a psique ocidental se apoiando em uma hierarquia de intérpretes. Tal como separou Descartes - Mente e Corpo -, o dualismo - Deus/mundo, não parece resistir ao exame científico, explicita o físico teórico Amit Goswami.
O Idealismo Monista, compatível com a física quântica, fornece um novo paradigma que pode solucionar os paradoxos do misticismo (transcendência e pluralidade) e dar partida a uma ciência idealista e de fazer a revitalização das religiões.

Goswami aponta: os quatro aspectos da consciência

1. Percepção: campo da mente, trabalho global.
2. Os objetos da consciência: pensamentos e sentimentos passageiros
3. O sujeito/observador/experienciador e testemunha - o self consciente
4. Consciência, fundamento de todo o SER.

Não podemos identificar a consciência com as nossas percepções motoras, sensações e impressões sensoriais. Você se identifica com os seus dedos, no ato de escrever ou com os seus pés no ato de andar? Nada disto e nem um dos chamados "concomitantes" externos da nossa experiência consciente podem ser confundidos com os elementos fundamentais da nossa consciência. No âmago da nossa mente, os pensamentos, sentimentos e opções se encarados assim, nos jogariam dentro do conceito errôneo de Descartes - penso logo existo - quando o correto é - "escolho, logo existo" - Ulrich Neisser adverte e prova o que diz através da física quântica. Escolher é uma função primordial da consciência. "A psicologia não está pronta para enfrentar a consciência" - Amit Goswami retruca - "por sorte, a física está".

Fontes:
O Universo Autoconsciente - Amit Goswami, Phd - Ed. Rosa dos Ventos.
A Filosofia Perene - Aldous Huxley.

* Ilustração: Claudio Salvio.

A Memória da Natureza

A MEMÓRIA DA NATUREZA
Maria Cecile Azambuja
Jornalista
No século XIX, Charles Darwin revolucionou a ciência com suas teorias a respeito da evolução das espécies. No século seguinte, outro inglês, Rupert Sheldrake, também causou polêmica no meio científico. Suas teorias são consideradas revolucionárias porque abalam as verdades já estabelecidas sobre a origem das espécies. Apesar de parecerem muito complicadas elas podem ser resumidas de uma maneira bem simples: a natureza tem memória.

Como todo grande cientista, Rupert Sheldrake sempre foi um observador da natureza. Descobriu muito cedo que ela está a todo momento produzindo pistas que podem nos levar a novas respostas sobre o mistério da criação. A primeira grande "revelação" aconteceu quando tinha menos de cinco anos de idade. Ele observava um galho que brotava de uma estaca de madeira que parecia estar morta. Ficou fascinado com a capacidade de renascimento da planta e começou a tentar compreender o mistério que se esconde nos processos de morte e de regeneração sempre presentes na natureza.

Depois de muitos anos de estudo e pesquisa chegou à conclusão de que a chave desse mistério estaria numa espécie de memória: uma memória coletiva e inconsciente que faz com que formas e hábitos sejam transmitidos de geração para geração. Sheldrake chamou essa memória coletiva de campo mórfico. Esse campo seria uma região de influência que atua dentro e em torno de todo organismo vivo. Algo parecido com o campo eletromagnético que existe em volta dos imãs.

Para o cientista, cada grupo de animais, plantas, pássaros etc está cercado por uma espécie de campo invisível que contém uma memória e que sugere que as leis da natureza são como hábitos. Cada animal usa a memória de todos os outros animais da sua espécie. Esses campos são o meio pelo qual os hábitos de cada espécie se formam, se mantém e se repetem. Os seres humanos também têm uma memória comum. É o que Jung chamou de inconsciente coletivo.

A existência dos campos mórficos pode ser demonstrada de várias maneiras.

Sheldrake já realizou várias pesquisas para provar que o corpo possui um campo mórfico e quando se perde uma parte desse corpo, o campo permanece. Um exemplo é.uma das experiências que fez. Uma pessoa que não tem parte do braço age como se estivesse empurrando o membro fantasma através de uma tela fina. Do outro lado da tela, uma outra pessoa tenta tocar o braço fantasma. De acordo com Sheldrake, as duas pessoas envolvidas na experiência são capazes de sentir o toque. É uma prova de que alguma coisa do braço ainda existe concretamente e não apenas no cérebro da pessoa que o perdeu.

Os campos mórficos também se aplicam àquela sensação que a maioria das pessoas tem quando sente que está sendo observada por trás. A pessoa se vira e comprova que alguém realmente a estava observando.

A respeito da teoria da memória coletiva, Sheldrake lança uma luz sobre a questão da existência de vidas passadas. Ele diz que às vezes as pessoas podem entrar em sintonia com as memórias de uma outra pessoa que existiu no passado. O que não significa que elas foram realmente aquela pessoa, mas que se teve acesso à memória dela.

A aplicação prática mais importante dos campos mórficos pode estar na educação. Sheldrake garante que os seres humanos aprendem com mais facilidade o que os outros aprenderam antes. Esse fenômeno é muito comum entre os químicos. Quando um deles tenta cristalizar um novo composto leva muito tempo para conseguir um bom resultado. Mas a partir desse momento em outros lugares do mundo muitos outros químicos conseguem cristalizar o mesmo composto num tempo muito mais curto. A experiência mais fácil de se compreender é a que foi feita numa universidade inglesa. Alguns pesquisadores conseguiram provar que as palavras cruzadas dos jornais são muito mais fáceis de resolver quando feitas no dia seguinte à publicação original.

Mas além de um grande bioquímico, Sheldrake também pode ser considerado um filósofo. Ele defende a idéia de que temos de nos responsabilizar não só pelos nossos atos e palavras. Precisamos também tomar muito cuidado com os nossos pensamentos, pois estes interferem no meio ambiente e podem ter conseqüências em lugares muito distantes.

(Texto extraído do Jornal Vimana, nº3 – pg 15)