| Um corpo vivo e emocionado | |||
| Ana Christina de Andrade | |||
"Você é o seu corpo"
Para alguns esta afirmação pode parecer limitadora e apoiada na vaidade, num cultivo narcisista da aparência. No entanto o que é corpo? De que corpo se fala? Os instrutores do Coringa Rio Abierto, como tantos outros trabalhadores do ser que vêm surgindo no mundo, mais abertamente desde a década de 70 ( gestaltistas, seguidores da Bioenergética, da Biossintese, da Psicologia Formativa e muitos outros) acreditam que não "temos" um corpo e sim somos nosso corpo. Corpo e mente não são separados: pensar, sentir, agir, imaginar, tudo isso é corpo, é processo vital, fluir da energia.
O grupo Coringa começou como um grupo de dança / teatro, nos anos setenta, reunindo pessoas de diferentes formações, de 20 a 30 anos, alguns com experiência em teatro, outros em música ou artes plásticas; outros mais dançarinos, poetas, filósofos; um ou outro com a experiência de viver em comunidades espirituais, um outro, professor, outro engenheiro.
Em matéria de corpo muitos foram alunos de Angel Viana, outros de Gerry Maretsky.
Outros fizeram kempô com o Joo, ou foram discípulos de Rolf Gelewsky.
O que havia em comum nesse grupo?
O amor pelo humano, a vontade de expressão artística, o respeito profundo pelo corpo, o desejo de crescer e Ser. O grupo Coringa inicial se apresentava em espetáculos de dança-teatro . Adorado por uns, ganhador de prêmios em Dança Contemporânea que reconheciam principalmente seu espirito espontâneo, verdadeiro e audacioso; e detestado por outros, críticos mais tradicionais com menos compreensão da variedade da evolução humana, de qualquer forma o Grupo Coringa destacou-se nesse momento social do Rio de Janeiro. A diretora do grupo era Graciela Figueroa, bailarina, profunda, amorosa, carismática; integrante do grupo de Dança de Twyla Tharp, respeitadíssima nos Estados Unidos, em Nova York, Graciela optou por ficar na América do Sul e no Brasil, e dedicar seu talento exuberante à criação de um trabalho que privilegiasse o sentir humano.
Com o passar do tempo o grupo Coringa foi tendo necessidade de firmar-se cada vez mais dentro da área da Educação do Ser e de aprofundar sua nutrição psicológica e espiritual. O encontro com Maria Adela Palcos, psicóloga argentina e diretora do Instituto Rio Abierto, em Buenos Aires, foi decisivo para o grupo, que hoje em dia representa o Rio Abierto aqui no Rio de Janeiro. Maria Adela Palcos, hoje com 65 anos, é, como ela mesma se define, uma índia que precisou vestir a pele de psicanalista para poder atuar socialmente. Sensível à força da terra americana, ao esplendor da Cordilheira dos Andes, à graça e amorosidade das tribos indígenas americanas, Maria Adela criou toda uma técnica que alia a espontaneidade do movimento natural ao conhecimento refinado de psicologia e sociologia, tornando seu trabalho um dos mais importantes na área de Educação do Ser. Este trabalho chama-se Rio Abierto e fala da possibilidade de expansão e fluência de nosso ser humano. Hoje no Rio de Janeiro o grupo se chama CORINGA Rio Abierto e é dirigido por três dos integrantes do grupo inicial: Ana Christina de Andrade, Marília Felippe e Michel Robim. Graciela Figueroa mora hoje no Uruguay, onde fundou seu próprio Instituto ( Centro del Desarollo), e mantém permanente intercâmbio com o CORINGA Rio Abierto.
Quando pensamos em Rio Abierto, pensamos em fluir.
A fluência, como nos lembra Stanley Keleman, é uma função celular básica; se vemos o protoplasma num microscópio, vemos que ele flui, tem correntes, como um rio . No entanto são poucos os que têm consciência desse fluir e que sentem seu corpo como esse fluir, pois a maioria de nós está entupida, paralisada ou interrompida por bloqueios profundos, contrações físico-emocionais vividas talvez lá no começo de nossas vidas e que impedem o movimento.
O objetivo do trabalho do Rio Abierto é recuperar esse movimento, trazer de volta ao ser humano suas águas correntes, o riso, o choro, os líquidos do amor e do prazer, a confiança no fluir da vida e do tempo. Maria Adela Palcos, criadora do Rio Abierto, costuma chamar seu trabalho de "Yoga das Américas" no sentido de ser um processo que, como a Yoga oriental, vai aprofundando a consciência através da meditação no corpo e que acrescenta à concentração a vitalidade e a expressividade emocional, tão características dos povos ocidentais e americanos.
No CORINGA Rio Abierto, quando se fala de corpo é de um corpo vivo, emocionado, humanizado; o corpo que tem uma história, que tem marcas, que tem perguntas; o corpo original, pessoal, único, de cada um, que vive diferentemente suas várias idades; o corpo que pode criar novas formas para si, mover-se, pulsar, cantar, rir e chorar, sentir, pensar, ser solidário, compartilhar, amar.
O objetivo estético, da beleza do corpo, está incluído no trabalho também – a beleza é vista como graciosidade, vivacidade, força aliada à sensibilidade, prazer de viver a vida em todas as suas expressões. É uma beleza de estar em contato consigo mesmo e permeável aos outros e ao mundo, interligado ao universo. Viver assim melhora a saúde, faz a energia circular, os olhos brilharem, a emoção aflorar.
Pessoas de todas as idades podem participar, cada uma contribuindo com sua presença, sua forma particular, sua história, suas experiências.
Consideramos "Educação do Ser" um processo para a vida toda, um contínuo esculpir da nossa forma pessoal, interessado, curioso , sempre aberto a mudanças.
Arte e auto-cura se entrelaçam no processo de desenvolvimento, ampliando a consciência. A música, a dança e as artes plásticas sempre foram curativas, sempre utilizadas nas tribos como apoio dos ritos de passagem, (nascimento, morte, guerra, casamentos, colheitas, mudanças, celebrações). Recuperar esta conexão entre expressão artística-emocional e auto-conhecimento curativo é com certeza um dos mais férteis caminhos para a humanidade.
Praticamente, esse trabalho do CORINGA Rio Abierto utiliza várias ferramentas:
Este trabalho de grupo é semanal, dura 4 meses, inclui atendimentos individuais e aulas de movimento, e no final se encerra com uma pequena viagem para fora do Rio onde o grupo organiza uma apresentação baseada em suas experiências. A cada semestre é escolhido um novo tema, como por exemplo : "A expressão no corpo" ; "A luz da nossa sombra" ; "Dinâmicas da sexualidade".
Os Instrutores do Coringa Rio Abierto têm a experiência de coordenar grupos há mais de 15 anos. Sempre é uma aventura profunda e feliz que nos emociona e também diverte. O poder rir de nós mesmos, de nossas imperfeições e repetições nos ajuda a aumentar a aceitação de nossas dificuldades, podendo começar a mudar, de fato, e começando por pequenas coisas.
Nos grupos de Trabalho Sobre-Si cuidamos da importância de acolher a fala de cada um, desenvolvendo o poder expressar e o saber ouvir, e cultivamos o propósito de sempre levar para o corpo os temas trazidos por cada um , usando técnicas de dramatização, movimento e dinâmicas de grupo. Este "trazer para o corpo" é algo simples, que todos podemos fazer, e que muitas vezes nos revela aspectos surpreendentes de nós mesmos. Não é mímica, teatro nem dança exatamente, e é um pouco de tudo isso, é um trabalho que, como em todas essas expressões, necessita concentração, sensibilidade, e o cuidado de um artista com a sua obra.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
Ecofeminismo
Gênero e meio ambiente:
a atualidade do ecofeminismo
A preocupação com o meio ambiente tem aumentado no decorrer dos anos. Já não é mais possível esconder a relação existente entre as catástrofes naturais e a destruição e poluição do meio ambiente. A crise ambiental está gerando problemas de caráter alarmante, os quais, além de comprometer a qualidade de vida, em muitos casos danificam o meio ambiente de forma irreversível, colocando em risco a vida do planeta para as gerações atuais e futuras.
Os problemas ambientais não devem ser entendidos isoladamente, visto que são sistêmicos, interligados e interdependentes. O capitalismo, centrado na exploração de recursos naturais e seres humanos tem contribuído decisivamente para o aprofundamento da destruição ambiental. Como já afirmava Engels: “não devemos vangloriar-nos demais com as vitórias humanas sobre a natureza, pois para cada uma destas vitórias, a natureza vinga-se às nossas custas” (ENGELS, 1972: 452).
No decorrer da história da humanidade, as mulheres têm desenvolvido uma relação diferenciada com a natureza em comparação aos homens. Neste texto, analisamos a pré-disposição das mulheres em proteger o meio ambiente e qual a relação existente entre a exploração e dominação da natureza e a dominação e subordinação das mulheres nas relações de gênero. Nesta análise, o movimento ecofeminista apresenta elementos importantes para a compreensão desta relação, contribuindo para a superação de visões simplificadoras acerca do tema.
1. A relação das mulheres com a natureza
Uma das primeiras representações divinas criadas pelos seres humanos foi a figura da “Deusa”, que representava a “mãe terra”. Conforme a mitologia grega, a Grande Mãe criou o universo sozinha, sendo Gaia a criadora primária, a “Mãe Terra”. Também as religiões pagãs antigas, como dos Vikings e Celtas, mantinham uma relação próxima com a natureza e cultuavam deusas, concedendo um destaque especial para as mulheres, pois estas tinham uma proximidade muito grande com a “Mãe Terra”, possuindo ambas o poder da fertilidade. Na mitologia celta, as mulheres eram invulneráveis, inteligentes, poderosas, guerreiras e líderes de nações. As mulheres também foram os primeiros seres humanos a descobrir os ciclos da natureza, pois era possível compará-los com o ciclo do próprio corpo. Com o cristianismo, a sociedade ocidental afastou-se destas origens pagãs de contato com a natureza e a mulher perdeu seu destaque, já que o Deus cultuado passou a ser masculino. A única figura feminina sagrada preservada foi a de Maria, mas não como uma divindade, e sim como uma intermediária de Deus, uma coadjuvante.
Diante da crise ambiental mundial e da consciência de que a Terra precisa ser preservada para garantir a sobrevivência das espécies, inclusive a humana, houve um despertar de valores ecológicos, ou seja, valores ligados à “Deusa” cultuada pelos povos pagãos, como o respeito a todas as formas de vida no planeta, a convivência na diversidade, etc.
2. O “cuidado” como tarefa feminina
A opressão e submissão das mulheres surgiram muito antes do capitalismo. Seu surgimento pode ser verificado historicamente desde que os povos deixaram de ser nômades e utilizaram a divisão social do trabalho como forma de organização. Assim, as mulheres permaneceram mais ligadas ao lar e aos filhos, enquanto os homens se ocupavam prioritariamente com as caçadas, por serem, na maioria das vezes, dotados de maior força física. Assim, as mulheres descobriram a agricultura e passaram a ter uma relação mais próxima com a natureza. Com a descoberta do papel masculino na reprodução, entretanto, era necessário saber quais os filhos que pertenciam a determinado homem para garantir a sucessão da herança. Inicia-se, desta forma, o controle sobre o corpo da mulher e o fato de mantê-la no âmbito do lar e cuidando da prole de um relacionamento monogâmico, facilitava tal intuito.
Através do desenvolvimento do capitalismo, as diferenças de gênero foram intensificadas. As mulheres foram, estrategicamente, encarregadas do trabalho doméstico, cuidando da casa, das crianças, dos velhos e doentes, além de “servirem” o marido, sendo caracterizadas como “rainhas do lar”. O trabalho doméstico foi considerado gratuito e denominado como trabalho não produtivo. Ao capitalismo a submissão social da mulher serviu inicialmente para diminuir os custos de reprodução do trabalho, uma vez que o salário do homem não precisava ser tão alto, pois ele não necessitava pagar pelos serviços domésticos (MIES, 1989: 47).
Simone de Beauvoir (BEAUVOIR, 1968) denuncia em seu livro O Segundo Sexo a exclusão das mulheres do espaço público em função da naturalização do papel feminino na reprodução. Desta forma, a mulher passa a ter uma vida cíclica, quase inconsciente, enquanto aos homens são reservados todos os benefícios da “civilização”[1]. Esta “naturalização” da tarefa feminina na reprodução e na vida doméstica, bem como a responsabilidade pela alimentação e saúde da família, acabou aproximando a mulher da natureza. Em muitas culturas as mulheres são as responsáveis pela manutenção da biodiversidade. Elas produzem, reproduzem, consomem e conservam a biodiversidade na agricultura (MIES/SHIVA, 1995: 234). Portanto, a tendência é que, para as mulheres, o equilíbrio do meio ambiente venha a se apresentar como um fator fundamental para a qualidade de vida da família, concebendo, assim, a natureza como fonte de vida que precisa ser preservada[2]. Enquanto isto, na visão capitalista patriarcal, a natureza não passa de um mero objeto de exploração, dominação e poder.
Os filósofos adeptos à ecologia profunda[3] afirmam que, se os homens estivessem mais próximos às tarefas domésticas e de reprodução, haveria um ganho na qualidade de vida e, conseqüentemente, na proteção ambiental, uma vez que eles teriam uma percepção real da unidade e interdependência dos seres humanos com o meio ambiente. As mulheres já fazem isto, porque a elas foi deixada a tarefa do cuidado e da manutenção da vida (CAPRA, 1996).
3. Ecofeminismo
O ecofeminismo originou-se de diversos movimentos sociais – de mulheres, pacifista e ambiental – no final da década de 1970, os quais, em princípio, atuaram unidos contra a construção de usinas nucleares. O movimento ecofeminista traz à tona a relação estreita existente entre a exploração e a submissão da natureza, das mulheres e dos povos estrangeiros pelo poder patriarcal (MIES/SHIVA, 1995: 23). Assim, a dominação das mulheres está baseada nos mesmos fundamentos e impulsos que levaram à exploração da natureza e de povos. Tanto o meio ambiente como as mulheres são vistos pelo capitalismo patriarcal como “coisa útil”, que devem ser submetidos às supostas necessidades humanas, seja como objeto de consumo, como meio de produção ou exploração. Além disso, o capitalismo patriarcal apresenta uma intolerância diante de outras espécies, seres humanos ou culturas que julga subalternas ao seu poder, buscando, assim, dominá-las. Neste contexto estão inseridos tanto o meio ambiente quanto as mulheres.
O ecofeminismo pode ser dividido em três tendências:
a) Ecofeminismo clássico. Nesta tendência o feminismo denuncia a naturalização da mulher como um dos mecanismos de legitimação do patriarcado. Segundo o ecofeminismo clássico, a obsessão dos homens pelo poder tem levado o mundo a guerras suicidas, ao envenenamento e à destruição do planeta. Neste contexto, a ética feminina de proteção dos seres vivos se opõe à essência agressiva masculina, e é fundamentada através das características femininas igualitárias e por atitudes maternais que acabam pré-dispondo as mulheres ao pacifismo e à conservação da natureza, enquanto os homens seriam naturalmente predispostos à competição e à destruição;
b) Ecofeminismo espiritualista do Terceiro Mundo. Teve origem nos países do sul, tendo a influência dos princípios religiosos de Ghandi, na Ásia, e da Teologia da Libertação, na América Latina. Esta tendência afirma que o desenvolvimento da sociedade gera um processo de violência contra a mulher e o meio ambiente, tendo suas raízes nas concepções patriarcais de dominação e centralização do poder. Caracteriza-se também pela postura crítica contra a dominação, pela luta antisexista, antiracista, antielitista e anti-antropocêntrica. Além disso, atribui ao princípio da cosmologia a tendência protetora das mulheres para com a natureza;
c) Ecofeminismo construtivista. Esta tendência não se identifica nem com o essencialismo, nem com as fontes religiosas espirituais das correntes anteriores, embora compartilhe idéias como antiracismo, anti-antropocentrismo e anti-imperialismo. Ela defende que a relação profunda da maioria das mulheres com a natureza não está associada a características próprias do sexo feminino, mas é originária de suas responsabilidades de gênero na economia familiar, criadas através da divisão social do trabalho, da distribuição do poder e da propriedade. Para tanto, defendem que é necessário assumir novas práticas de relação de gênero e com a natureza.
PULEO alerta para a debilidade teórica existente nas duas primeiras tendências, como também para um possível risco de se afirmar a utilização de estereótipos femininos na sociedade. O ecofeminismo construtivista, por sua vez, desconsidera a importância da mística, o que acaba dificultando a mobilização das mulheres em torno do tema, elemento este que para o ecofeminismo espiritualista tem representado uma força prática efetivamente mobilizadora.
As mulheres pobres do Terceiro Mundo, que vivem em uma economia de subsistência, são as maiores vítimas da crise ambiental em seus países, pois são as primeiras a sentirem o reflexo da diminuição da qualidade de vida causadas pela poluição ou escassez dos recursos naturais, os quais são explorados indiscriminadamente para satisfazer as “necessidades” do Primeiro Mundo. A lógica do capitalismo tem se demonstrado incompatível com as exigências ecológicas para a sustentabilidade da vida no planeta. Portanto, ao contrário do que muitos ecologistas pensam, não é possível ecologizar o capitalismo, assim como também não é possível acabar com a dominação e exploração do gênero feminino sem superar as estruturas capitalistas patriarcais que a mantém. Deste modo, tanto a solução da crise ambiental quanto a da opressão das mulheres não devem ser tratados como problemas isolados. A salvação da vida no planeta, assim como a emancipação não só das mulheres como de todos os seres humanos, dependem de uma mudança estrutural e organizacional da sociedade. E para isto, é imprescindível a ação conjunta dos movimentos sociais contra seu opressor comum: o capitalismo patriarcal.
Referências bibliográficas:
BEAUVOIR, Simone de. Das andere Geschlecht: Sitte und Sexus der Frau. Hamburg: Rowohlt, 1968.
CAPRA, Fritijof. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
ENGELS, Friedrich. Dialetik der Natur. MEW 20. Berlin: Dietz Verlag, 1972.
MIES, Maria. Patriarchat und Kapital. Frauen in der internationalen Arbeitsteilung. Zürich: Rotpunktverlag, 1996.
MIES, Maria/SHIVA, Vandana. Ökofeminismus: Beiträge zur Praxis und Theorie. Zürich: Rotpunkt-Verlage, 1995.
PULEO, Alicia H. Feminismo y ecología. Disponível no site: http://www.nodo50.org/mujeresred/ecologia-a_puleo-feminismo_y_ecologia.html
PUSCH, Luise F. Feminismus – Inspektion der Herrenkultur. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1983.
URBANISMO SUSTENTÁVEL
May East e a Gaia Education
May East, diretora do Gaia Education, programa vinculado à ONU que dissemina o conceito de urbanismo sustentável. Mora na ecovila Findhorn, Escócia, e viaja o mundo para impulsionar o movimento das cidades em transição (Transition Towns). Desde que foi criado há pouco mais de três anos, gerou mais 8 mil iniciativas de transição e 180 cidades oficialmente reconhecidas espalhadas pelo mundo
Edição Marcia Bindo *
Vida Simples - 07/2010
Vida Simples - 07/2010
O que são as cidades em transição?
São cidades preparadas para serem sustentáveis, mais fortes para resistir às crises econômicas e ambientais. É muito diferente do movimento ambientalista dos últimos 20 anos. Em vez de trabalhar com dados alarmantes, é positivo, busca ações concretas criativas para o desafio duplo que espreita a humanidade: o pico do petróleo e a mudança climática.
Como funciona na prática?
Em encontros comunitários, busca-se entender a dinâmica da cidade ou do bairro no consumo diário de energia e recursos. Um exemplo é a alimentação, priorizando-se a produção local e a compra em estabelecimentos regionais, o que ainda fortalece a economia local. Priorizam-se transportes coletivos e ciclovias em lugar de carros com apenas uma pessoa.
Como as pessoas podem se engajar? Basta um pequeno grupo para começar a mobilizar tantas outras para projetar como é a cidade em que eles querem morar daqui a alguns anos. Acesse para ver a metodologia e checar os próximos treinamentos. Já há grupos em bairros de São Paulo e Rio de Janeiro e a primeira cidade em transição oficial no Brasil fica no Espírito Santo.
* Colaboração: Leandro Sarmatz, Liane Alves, Luciana Loew, Rafael Tonon e Taruna Moa
São cidades preparadas para serem sustentáveis, mais fortes para resistir às crises econômicas e ambientais. É muito diferente do movimento ambientalista dos últimos 20 anos. Em vez de trabalhar com dados alarmantes, é positivo, busca ações concretas criativas para o desafio duplo que espreita a humanidade: o pico do petróleo e a mudança climática.
Como funciona na prática?
Em encontros comunitários, busca-se entender a dinâmica da cidade ou do bairro no consumo diário de energia e recursos. Um exemplo é a alimentação, priorizando-se a produção local e a compra em estabelecimentos regionais, o que ainda fortalece a economia local. Priorizam-se transportes coletivos e ciclovias em lugar de carros com apenas uma pessoa.
Como as pessoas podem se engajar? Basta um pequeno grupo para começar a mobilizar tantas outras para projetar como é a cidade em que eles querem morar daqui a alguns anos. Acesse para ver a metodologia e checar os próximos treinamentos. Já há grupos em bairros de São Paulo e Rio de Janeiro e a primeira cidade em transição oficial no Brasil fica no Espírito Santo.
* Colaboração: Leandro Sarmatz, Liane Alves, Luciana Loew, Rafael Tonon e Taruna Moa
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Função Transcendente - Jung
Jung define o processo da “função transcendente” no seu trabalho “Tipos Psicológicos”, nos §244, §549 e §550:
“A função psicológica e transcendente resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes. A experiência no campo da Psicologia Analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. (…) A atividade do inconsciente faz emergir um conteúdo em que se patenteia, em idêntica medida, o influxo da tese e da antítese, e que, em relação a ambas, conduz-se com efeitos compensatórios. Desde o começo em que esse conteúdo mostra suas relações tanto com a tese como com a antítese, constitui uma base intermediária em que os contrastes se podem conjugar. (…) Em seu conjunto, dou ao processo que acabo de descrever o nome de Função Transcendente. Mas, neste caso, não entendo como função, uma função fundamental, mas o fato de que, em virtude dessa função, opera-se o trânsito entre uma e outra disposição. A matéria-prima trabalha pela tese e antítese que em seu processo de conformação realiza a conjugação dos contrários é o símbolo vivo”.
domingo, 15 de janeiro de 2012
A Mente Oculta das Plantas

A mente oculta das plantas
A ciência descobre o surpreendente domínio
da consciência vegetal
Por José Tadeu Arantes
jtadeu@edglobo.com.br
Foto Kirlian de uma folha. Após décadas de pesquisas, os cientistas ainda não chegaram a uma explicação convincente para o halo luminoso que aparece em volta dos objetos
As plantas são capazes de perceber agressões à vida praticadas do outro lado da parede. E parecem ter consciência até mesmo de intenções ocultas na mente humana. Essa fantástica revelação — que foi tema do livro A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird, e inspirou o álbum de mesmo nome do compositor e cantor Steve Wonder — vem sendo confirmada por pesquisas científicas realizadas no Brasil. Ela faz parte de um conjunto de descobertas que deverá revolucionar a visão de mundo do próximo século e apontam para um relacionamento mais harmonioso entre o homem e a natureza.
Os xamãs — homens de conhecimento das comunidades pré-históricas — já sabiam que, por trás de seu aparente torpor, as plantas possuem uma vida secreta, cheia de percepções e atividades. Esse mundo oculto foi contactado, desde então, por visionários de diferentes épocas e lugares, como o místico alemão Jacob Boehme (1575-1624), que dizia ser capaz de penetrar a consciência das plantas.
A ciência materialista, porém, preferiu descartar esse tema, que desafiava sua limitada descrição da realidade. Ele co ntinuaria provavelmente ignorado se, em 1966, uma descoberta casual não tivesse rompido essa conspiração de silêncio. Naquele ano, Cleve Backster, então o maior especialista americano em detecção de mentiras, teve a estranha idéia de fixar os eletrodos de um de seus detectores numa folha de dracena, espécie tropical utilizada como planta ornamental.
Ele foi movido pela simples curiosidade, mas o que encontrou abalaria os fundamentos da visão de mundo dominante. Backster suspeitava que a planta reagisse a agressões reais à sua integridade física. Mas não podia imaginar que a simples idéia dessas agressões provocasse saltos violentos nos gráficos traçados pelo aparelho. Pois foi exatamente o que aconteceu quando ele pensou em queimar uma das folhas da dracena.
E voltou a acontecer quando se aproximou dela com uma caixa de fósforos, disposto a levar sua intenção à prática. A planta parecia ler o seu pensamento e sabia distinguir as ameaças reais da mera simulação.
Sem querer, Backster abrira a porta que dava entrada a uma realidade totalmente inesperada — e desconcertante.
A grande novidade do experimento foi ter propiciado um acesso direto às percepções das plantas sem a intermediação de sensitivos humanos: não era preciso ser paranormal para contactar o mundo da consciência vegetal. Esse ponto de vista foi reforçado, em julho último, por uma pesquisa feita na Universidade de Gant, na Bélgica.
Valendo-se de imagens em infravermelho, o pesquisador Dominique van der Straeten e sua equipe descobriram que as folhas de tabaco têm a capacidade de reagir com uma espécie de febre quando infectadas por certos tipos de vírus. Como relatado no jornal Nature Biotechnology, as folhas sofreram um aumento de temperatura de até 0,4 grau Celsius, oito horas antes dos efeitos dos vírus se manifestarem, num processo "fisiológico" semelhante ao do corpo humano.
Percepção básica
Atento a tais descobertas, um brasileiro resolveu fazer uma investigação parecida. Trata-se do engenheiro Arlindo Tondin, mestre em eletrônica pela Universidade de Nova York e um dos fundadores da Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo do Campo, SP.
O engenheiro Arlindo Tondin fixa eletrodos numa planta. A foto foi realizada no Laboratório de Metrologia Elétrica da FEI, em São Bernardo do Campo, SP. O local é blindado eletricamente para eliminar a influência dos ruídos externos
Tondin fixou eletrodos próximo à raiz e num dos galhos de um limoeiro. "Verifiquei que havia, entre os dois pontos, uma diferença de potencial elétrico da ordem de microvolts", informa. "Eu já desconfiava que a ascensão da seiva estivesse associada a um fenômeno elétrico e, para confirmar isso, liguei aos eletrodos uma pilha de 1,5 volt, de modo a intensificar a corrente na região. Resultado: os frutos do galho onde estava o eletrodo ficaram maiores e amadureceram mais rápido que os demais."
Estava provada a tese da seiva. O próximo passo era averiguar como as agressões externas afetavam a corrente elétrica que circula na planta. Para isso, o engenheiro utilizou um osciloscópio de raios catódicos de alta sensibilidade. "Conectei o osciloscópio aos eletrodos e, com uma vela, comecei a queimar algumas folhas. A resposta foi quase imediata: a imagem da tela do osciloscópio, que estava estacionária, passou a apresentar intensas variações." Tondin espantou-se com a reação provocada por seu ato. "Comecei a questionar até que ponto eu tinha o direito de agredir o vegetal e a natureza. E resolvi interromper a pesquisa."
O engenheiro convenceu-se da seriedade dos experimentos descritos em A Vida Secreta das Plantas. Num deles, também realizado por Backster, três plantas reagem à matança de camarões, cometida numa outra sala. Essa investigação foi conduzida com os cuida dos que caracterizam as melhores pesquisas científicas:
foram escolhidos, como vítimas, animais de grande vitalidade, pois já tinha sido notado que seres doentes ou a caminho da morte não eram capazes de estimular as plantas a distância;
para evitar que a subjetividade dos pesquisadores influísse nos resultados, os camarões eram despejados numa vasilha de água fervente por um mecanismo automático, longe das vistas de qualquer ser humano;
eliminaram-se as possibilidades de que o próprio funcionamento do mecanismo ou eventuais perturbações eletromagnéticas afetassem a forma dos gráficos;
as plantas, monitoradas por detectores, foram colocadas em três salas diferentes, submetidas às mesmas condições de temperatura e iluminação.
A análise dos gráficos mostrou que as plantas reagiam intensa e sincronizadamente à morte dos camarões — numa proporção que excluía qualquer hipótese de uma flutuação puramente casual das variáveis elétricas. Backster sentiu-se respaldado para formular a tese de que os vegetais, como todo organismo vivo, dispõem de uma percepção primária que lhes permite detectar, a distância, qualquer agressão à vida.
O
rganismos complexos
Apesar de sua aparência simples, as plantas são organismos altamente complexos. Uma planta pequena, como o pé de centeio, possui nada menos que 13 milhões de radículas em sua raiz. Estas são formadas, por sua vez, de 14 bilhões de filamentos, que, se fossem enfileirados um após o outro, cobririam uma extensão de 11 mil quilômetros, quase a distância de um pólo a outro.
Toda planta é dotada de uma malha elétrica em equilíbrio. Nas árvores, a corrente elétrica sobe pelo anel externo e desce pelo anel central. Como demonstrou a pesquisa do brasileiro Arlindo Tondin, essa corrente está associada ao fluxo da seiva.
Os corpos sutis
Jaqueira tratada com acupuntura: frutificação exuberante
Se, no homem, essa percepção básica nem sempre parece ocorrer, isso se deve ao filtro dos cinco sentidos, à força do pensamento racional, que obscurece as demais funções psíquicas, e a todo um condicionamento cultural, que determina o que deve ou não deve ser percebido. Como provaram outros experimentos, essa percepção a distância não é bloqueada por dispositivos de blindagem elétrica, como a gaiola de Faraday, nem por paredes de chumbo.
E Backster chegou a cogitar que ela não se limitaria aos organismos complexos, mas poderia descer aos níveis celular, molecular, atômico e até mesmo subatômico, perpassando toda a existência. Essa opinião ousada apresenta fortes afinidades com a hipótese da ressonância mórfica, do biólogo inglês Rupert Sheldrake, e com as revolucionárias descobertas sobre a consciência do psiquiatra checo Stanislav Grof (leia as reportagens "Ressonância mórfica: a teoria do centésimo macaco" e "Consciência sem limites", em Galileu, números 91 e 94, respectivamente).
Em outras palavras, cada planta — para não dizer cada ente material — estaria associada a um invisível e impalpável campo de consciência. Tal idéia, que vem ganhando adeptos entre os cientistas de vanguarda, converge com a visão de todas as grandes tradições espirituais da humanidade. Estas são unânimes em considerar a consciência como um dado primário da existência e afirmam que, além de seus corpos físicos, os entes materiais são constituídos por uma série de "corpos sutis", encaixados uns dentro dos outros como bonecas russas.
As percepções descobertas por Backster e seus sucessores configurariam um esboço ou embrião daquilo que algumas tradições chamam de "corpo mental". Entre esse nível mais alto e o físico, as plantas, como todos os seres vivos, possuiriam um corpo intermediário, constituído pela rede de canais por onde flui a chamada "energia vital" (que corresponde ao prana dos indianos e ao qi dos chineses). Esse "corpo vital" é o objeto de práticas médicas como a acupuntura, que se destinam a desobstruir os canais e regularizar o fluxo da energia.
Vantagem econômica
A acupuntura em plantas vem sendo praticada com sucesso pelo médico Evaldo Martins Leite, presidente da Associação Brasileira de Acupuntura. Ele orientou, há cinco anos, uma pesquisa científica rigorosa, realizada pelo biólogo Alexandre Eustáquio de Sena, na Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte, MG. Sena dividiu uma plantação de feijão em duas partes iguais, tratando uma com acupuntura e mantendo a outra como grupo de controle. As plantas submetidas à acupuntura desenvolveram maior número de vagens, maior quantidade de grãos em cada vagem e maior peso por grão.
"Como ocorre nos homens e animais, os problemas de saúde que afetam os vegetais decorrem de um perturbação na circulação e distribuição do qi, a energia vital", explica Evaldo Martins Leite. "Isso resulta de um desequilíbrio dos princípios yang e yin (masculino e feminino)." O acupunturista ensina que as áreas de ramificação das plantas — isto é, onde os galhos saem dos troncos ou os ramos saem dos galhos — são regiões de concentração de qi.
Os ângulos externos formados nesses lugares são yang e os internos, yin. "A energia yang é responsável pelo crescimento da planta. A yin, pela produção de flores, frutos e sementes. A introdução de pregos, agulhas ou a simples raspagem das áreas correspondentes estimula um ou outro princípio e promove a função regida por ele", informa o acupunturista. Não é possível ativar as duas funções ao mesmo tempo.
A energia é uma só: se ela for desviada para o crescimento, a produção de frutos cairá, e vice-versa. Mas as vantagens — inclusive econômicas — oferecidas pela acupuntura em vegetais são importantes demais para serem tratadas como simples curiosidade.
Na Bahia, está em curso uma pesquisa visando aumentar a produção de látex nas seringueiras e o enraizamento dos toletes de cana-de-açúcar destinados ao plantio. Reconhecendo as dimensões sutis do mundo vegetal, o homem poderá estabelecer com ele um novo tipo de relacionamento, vantajoso para ambos.
Anote
Para ler:
A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird, Ed. Expressão e Cultura-Exped, Rio de Janeiro (0XX21) 532-5930
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O novo salto da consciência - Ricardo Kelmer

O novo salto quântico da consciência
Ricardo Kelmer
É provável que as plantas psicoativas possam ter contribuído
significativamente para o surgimento da autoconsciência.
A cada dia mais e mais pesquisadores ligados ao estudo da consciência,
antropologia, psicologia e botânica se debruçam sobre uma possibilidade no
mínimo intrigante e polêmica. É provável que as plantas psicoativas (que
induzem a mente a funcionar em estados especiais) possam ter contribuído
significativamente para o surgimento da autoconsciência, fator decisivo que
proporcionou aos nossos ancestrais, num determinado ponto da evolução, as
condições para sobreviver e gerar a incrível espécie a qual pertencemos: o
Homo sapiens.
Admitir tal hipótese é mexer num vespeiro. Muita gente se indagará: "Quer
dizer que nós humanos só existimos porque um bando de macacos comeram umas
plantinhas e ficaram doidões?" Imagino os mais religiosos: "Era só o que
faltava! Deixa só Deus escutar isso!" Pois infelizmente para muita gente, e
até para alguns deuses, essa hipótese vem sendo estudada com seriedade e
encontra ressonância positiva no meio científico.
Quem já passou por uma experiência com as tais "plantas sagradas", como a
Ayahuasca, o Peiote e a Jurema, sabe perfeitamente do imenso poder que elas
guardam. E sabe também que elas não se prestam a um consumo recreativo,
exatamente porque costumam tocar muito fundo em nosso interior, abalando
nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos fazendo emergir da
experiência profundamente transformados. Xamãs e pajés do mundo inteiro as
utilizam há milhares de anos em contextos religiosos e terapêuticos.
Atualmente médicos e pesquisadores de vários países estão unindo medicina
acadêmica com antiquíssimas práticas xamânicas que envolvem o uso de plantas
psicoativas e, com essa curiosa união, vêm obtendo resultados animadores na
cura de muitas doenças como a dependência química.
Atualmente no Brasil proliferam-se seitas e dissidências de seitas que em
seus rituais utilizam chás à base dessas plantas, chamando a atenção de
estudiosos para o emergente fenômeno. Toma-se o chá para entrar num estado
de consciência não ordinário, onde é possível viver experiências sensoriais
e cognitivas as mais diversas. Há quem encontre pessoas vivas ou mortas,
santos, entidades animais ou espíritos de plantas. Há os que experimentam
capacidades psíquicas incomuns ou vivenciam uma intensa sensação de união
com a Natureza e tudo que existe. Há quem passe por profundas experiências
de auto-investigaçã o psicológica como também de autocura ou seja tocado por
revelações importantes que podem mudar toda uma vida. Pode não acontecer
nada mas também pode ser prazeroso ou doloroso. Pode ser infernal ou divino
mas será sempre construtivo. Depende de cada um e de seu momento. Os
religiosos radicais, sempre obcecados, diriam que é coisa do demônio. Alguns
psicólogos talvez usassem o termo "terapia de choque". Talvez nada mais seja
que um providencial reencontro consigo mesmo e com sua verdade mais íntima.
Por que a crescente procura atual pelas plantas de poder dos xamãs? Por qual
razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a
segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo?
Minha impressão é que isso tudo talvez signifique, em última instância, uma
forma de religação à Natureza. Religação sim, porque, na verdade, nós também
fazemos parte da Natureza. O que houve é que, infelizmente, passamos a nos
ver separados dela e com isso nos distanciamos demais da sabedoria natural
do planeta e agora, perdidos num mundo cada vez mais caótico e insano,
buscamos com avidez crenças e experiências que nos reconectem ao sentido
maior da vida e às nossas verdades mais profundas. Entendo isso como um
anseio natural e legítimo de uma espécie adoecida: o anseio de cura,
liberdade, totalidade e harmonia com a Mãe Terra.
o que liberta também escraviza
Por minha própria experiência, sei que plantas psicoativas podem ser
bastante úteis porque nos fazem olhar para dentro, nos reconectam às leis
naturais e ao sagrado de nossas vidas, nos lembram de nosso potencial para a
autocura e ajudam a nos libertarmos de medos, culpas e bloqueios. Não há
como não se transformar após um profundo encontro consigo mesmo. É por isso
que quem passa por tais experiências xamânicas engrossa a legião dos que
entendem o mais importante: somente a profunda mudança interior de cada um é
que fará finalmente com que o mundo mude para melhor.
Este talvez seja o convite que as plantas sagradas fazem neste momento à
nossa espécie: quanto mais pessoas se religarem à sua verdade mais íntima,
mais próxima a humanidade estará de seu ponto de equilíbrio. Por outro lado,
sei também que a espécie humana está doente e que, na busca angustiada pela
cura, é capaz de exagerar no remédio. Por isso, nessa urgente busca por
valores espirituais, é preciso, acima de tudo, priorizar a liberdade e
atentar para o risco sempre presente de cairmos escravos exatamente daquilo
que um dia elegemos como libertador. As plantas sagradas não ficam de fora
desse perigo. Tenho amigos que fazem parte de seitas que utilizam tais
plantas e certamente discordarão. Respeito o que eles pensam e admiro sua
busca pessoal. Porém, como tudo o mais que existe, as plantas sagradas
também possuem dois lados. Se um lado liberta, o outro está lá prontinho
para escravizar caso você não se mantenha atento, equilibrado e sem apegos
excessivos.
Religiões, seitas e gurus funcionam muito bem para os que necessitam de
regras ou se sentem mais seguros pertencendo a um certo grupo. Eles estão em
seu caminho e isso deve ser respeitado. Mas há pessoas que conseguem beber
em todos os ensinamentos e usufruir do melhor que eles lhes oferecem sem ter
de se enquadrar em nenhum específico. É um caminho mais solitário, evidente,
e exige um contínuo "estar aberto" - mas que exatamente por isso recompensa
quem o trilha com a liberdade que nenhum outro caminho pode oferecer. As
regras da seita ou as palavras do guru podem até iluminar durante um tempo,
sim, mas até mesmo essa luz pode cegar para os horizontes seguintes da
jornada. O principal ensinamento das plantas de poder (assim como deveria
ser o de todo guru) é este: devemos abandonar todas as muletas e aprender a
caminhar por nós mesmos.
O atual processo coletivo de reconectar-se aos valores da Natureza através
das plantas psicoativas não significa uma espécie de retrocesso evolutivo e
que devemos voltar a saltar pelas árvores. Nada disso. Uma vez
ultrapassados, os marcos da evolução da consciência sempre nos impulsionam
para o novo, jamais para trás. Acontece que a verdadeira evolução avança em
forma de espiral e é por isso que quando o caminho parece retornar a um
determinado ponto, na verdade ele está sim passando novamente por lá - porém
num novo nível, mais acima, numa nova dimensão.
Talvez essas poderosas plantas, que acompanham nossa espécie desde seu
nascimento numa impressionante relação simbiótica, estejam agora nos
oferecendo a preciosa oportunidade de mais um salto quântico da consciência,
uma intensa transformação da mente e de sua interpretação da realidade -
como fizeram nossos peludos antepassados em algum ponto de sua jornada.
Agora, porém, diferente deles, possuímos razão e discernimento. Possuímos
milênios e milênios de experiência sedimentados no inconsciente comum da
espécie e temos nossos próprios erros para nos guiar.
Retornaremos à Mãe Terra e ao sagrado, sim, porque não há outro caminho se
quisermos de fato sobreviver como espécie. Mas o faremos num novo nível
porque agora estamos mais capacitados para enfrentar o grande mistério da
vida, esse mistério que nos maravilha e assombra cada vez que olhamos para o
sem-fim do mundo lá fora ou para o infinito interior de nós mesmos.
Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra,
3a. pedra do Sol
Entrevista a la abuela Margarida

Entrevista a la abuela Margarita
Entrevista: JOSÉ MARÍA ALGUERSUARI LA VANGUARDIA,
el diario más vendido en Catalunya Control OJD
Copyright La Vanguardia Ediciones S.L.
"Cuando necesito algo, me lo pido a mí misma"
Se crió con su bisabuela, que era curandera y milagrera. Practica y conoce los círculos de danza del sol, de la tierra, de la luna, y la búsqueda de visión. Pertenece al consejo de ancianos indígenas y se dedica a sembrar salud y conocimiento a cambio de la alegría que le produce hacerlo, porque para sustentarse sigue cultivando la tierra. Cuando viaja en avión y las azafatas le dan un nuevo vaso de plástico, ella se aferra al primero: "No joven, que esto va a parar a la madre tierra".
Rezuma sabiduría y poder, es algo que se percibe con nitidez. Sus rituales, como gritarle a la tierra el nombre del recién nacido para que reconozca y proteja su fruto, son explosiones de energía que hace bien al que lo presencia; y cuando te mira a los ojos y te dice que somos sagrados, algo profundo se agita.
-Tengo 71 años. Nací en el campo, en el estado de Jalisco (México), y vivo en la montaña. Soy viuda, tengo dos hijas y dos nietos de mis hijas, pero tengo miles con los que he podido aprender el amor sin apego. Nuestro origen es la madre tierra y el padre sol. He venido a la Fira de la Terra para recordarles lo que hay dentro de cada uno
¿Dónde vamos tras esta vida?
-¡Huy hija mía, al disfrute! La muerte no existe. Las muerte simplemente es dejar el cuerpo físico, si quieres.
¿Cómo que si quieres...?
-Te lo puedes llevar. Mi bisabuela era chichimeca, me crié con ella hasta los 14 años, era una mujer prodigiosa, una curandera, mágica, milagrosa. Aprendí mucho de ella.
Ya se la ve a usted sabia, abuela.
-El poder del cosmos, de la tierra y del gran espíritu está ahí para todos, basta tomarlo. Los curanderos valoramos y queremos mucho los cuatro elementos (fuego, agua, aire y tierra), los llamamos abuelos. La cuestión es que estaba una vez en España cuidando de un fuego, y nos pusimos a charlar.
¿Con quién?
-Con el fuego. "Yo estoy en ti", me dijo. "Ya lo sé", respondí. "Cuando decidas morir retornarás al espíritu, ¿por qué no te llevas el cuerpo?", dijo.
¿Cómo lo hago?, pregunté. -Interesante conversación.
-"Todo tu cuerpo está lleno de fuego y también de espíritu -me dijo-, ocupamos el cien por cien dentro de ti. El aire son tus maneras de pensar y ascienden si eres ligero. De agua tenemos más del 80%, que son los sentimientos y se evaporan. Y tierra somos menos del 20%, ¿qué te cuesta cargar con eso?".
¿Y para qué quieres el cuerpo?
-Pues para disfrutar, porque mantienes los cinco sentidos y ya no sufres apegos. Ahora mismo están aquí con nosotras los espíritus de mi marido y de mi hija.
Hola.
-El muertito más reciente de mi familia es mi suegro, que se fue con más de 90 años. Tres meses antes de morir decidió el día. "Si se me olvida -nos dijo-, me lo recuerdan". Llegó el día y se lo recordamos. Se bañó, se puso ropa nueva y nos dijo: "Ahora me voy a descansar". Se tumbó en la cama y murió. Eso mismo le puedo contar de mi bisabuela, de mis padres, de mis tías...
Y usted, abuela, ¿cómo quiere morir?
-Como mi maestro Martínez Paredes, un maya poderoso. Se fue a la montaña: "Al anochecer vengan a por mi cuerpo". Se le oyó cantar todo el día y cuando fueron a buscarle la tierra estaba llena de pisaditas. Así quiero yo morirme, danzando y cantando. ¿Sabe lo que hizo mi papá?
¿Qué hizo?
-Una semana antes de morir se fue a recoger sus pasos. Recorrió los lugares que amaba y a la gente que amaba y se dio el lujo de despedirse. La muerte no es muerte, es el miedo que tenemos al cambio. Mi hija me está diciendo: "Habla de mí", así que le voy a hablar de ella.
Su hija, ¿también decidió morir?
-Sí. Hay mucha juventud que no puede realizarse, y nadie quiere vivir sin sentido.
¿Qué merece la pena?
-Cuando miras a los ojos y dejas entrar al otro en ti y tú entras en el otro y te haces uno. Esa relación de amor es para siempre, ahí no hay hastío. Debemos entender que somos seres sagrados, que la tierra es nuestra madre y el sol nuestro padre. Hasta hace bien poquito los huicholes no aceptaban escrituras de propiedad de la tierra. "¿Cómo voy a ser propietario de la madre tierra?", decían.
-Aquí la tierra se explota, no se venera.
-¡La felicidad es tan sencilla!, consiste en respetar lo que somos, y somos tierra, cosmos y gran espíritu. Y cuando hablamos de la madre tierra, también hablamos de la mujer que debe ocupar su lugar de educadora.
¿Cuál es la misión de la mujer?
-Enseñar al hombre a amar. Cuando aprendan, tendrán otra manera de comportarse con la mujer y con la madre tierra. Debemos ver nuestro cuerpo como sagrado y saber que el sexo es un acto sagrado, esa es la manera de que sea dulce y nos llene de sentido. La vida llega a través de ese acto de amor. Si banalizas eso, ¿qué te queda? Devolverle
el poder sagrado a la sexualidad cambia nuestra actitud ante la vida. Cuando la mente se une al corazón todo es posible. Yo quiero decirle algo a todo el mundo...
-...
-Que pueden usar el poder del gran espíritu en el momento que quieran. Cuando entiendes quién eres, tus pensamientos se hacen realidad. Yo, cuando necesito algo, me lo pido a mí misma. Y funciona.
-Hay muchos creyentes que ruegan a Dios, y Dios no les concede.
-Porque una cosa es ser limosnero y otra, ordenarte a ti mismo, saber qué es lo que necesitas. Muchos creyentes se han vuelto dependientes, y el espíritu es totalmente libre; eso hay que asumirlo. Nos han enseñado a adorar imágenes en lugar de adorarnos a nosotros mismos y entre nosotros.
-Mientras no te empaches de ti mismo.
-Debemos sutilizar nuestra sombra, ser más ligeros, afinar las capacidades, entender. Entonces es fácil curar, tener telepatía y comunicarse con los otros, las plantas, los animales. Si decides vivir todas tus capacidades para hacer el bien, la vida es deleite.
¿Desde cuándo lo sabe?
-Momentos antes de morir mi hija me dijo: "Mamá, carga tu sagrada pipa, tienes que compartir tu sabiduría y vas a viajar mucho. No temas, yo te acompañaré". Yo vi con mucho asombro como ella se incorporaba al cosmos. Experimenté que la muerte no existe. El horizonte se amplió y las percepciones perdieron los límites, por eso ahora puedo verla y escucharla,
¿lo cree posible?
-Sí.
-Mis antepasados nos dejaron a los abuelos la custodia del conocimiento: "Llegará el día en que se volverá a compartir en círculos abiertos". Creo que ese tiempo ha llegado.
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